Título: Laudo: senador gastou mais do que declarou
Autor: Lima, Maria e Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 22/08/2007, O País, p. 8

SUCESSÃO DE ESCÂNDALOS: Dois dos três relatores devem apresentar pedido de cassação ao Conselho em setembro

Para aliados, porém, dado que aponta patrimônio suficiente para pagar pensão é justificativa para absolvição de Renan.

BRASÍLIA. Mesmo com as informações de que o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) gastou mais do que a receita declarada e sem comprovação de que os recursos repassados à jornalista Mônica Veloso saíram de suas contas, senadores governistas estavam ontem eufóricos com a interpretação de que o laudo do Instituto de Criminalística da Polícia Federal poderia ser favorável à sua absolvição em plenário. O dado da perícia considerado mais positivo é o que diz que Renan tem patrimônio suficiente para pagar a pensão à jornalista - R$418 mil nos últimos três anos -, o que descartaria a suspeita de uso de dinheiro do lobista Cláudio Gontijo, da construtora Mendes Júnior.

Peritos afirmam que investigação foi limitada

O laudo só chegou ao Senado à noite e foi entregue ao vice-presidente da Casa, Tião Viana (PT-AC). Ele conversou longamente com os técnicos do INC e disse que eles responderam às 30 perguntas do Conselho de Ética, mas de forma limitada, porque há barreiras constitucionais, e que só poderiam seguir adiante com autorização do Supremo Tribunal Federal. Tião falou com Geraldo Bertolo, diretor técnico-científico da PF, e Clênio Beluco, o diretor do INC. Segundo o senador, eles disseram:

- Respondemos a tudo tecnicamente. Não extrapolamos limites constitucionais. Respondemos no limite do que é permitido sem a autorização.

- Para uma resposta mais conclusiva, só com novas investigações que eles não têm como fazer sem a autorização do STF. Por isso, não recorreram a caminhos que poderiam seguir para avançar, como o acesso a dados de sigilo - disse Tião.

Antes mesmo da chegada do laudo, aliados de Renan diziam que o fato de ele ter patrimônio poderia ser a justificativa para respaldar uma absolvição no plenário, quando o relatório do Conselho ali chegar, em 20 dias. O raciocínio é que o objeto da investigação no Conselho é se Renan tem ou não dinheiro para a pensão, o que teria sido comprovado no laudo.

- Talvez seja a desculpa que procuravam para dar à sociedade. Por mim, com esse resultado, já morria no Conselho - disse Wellington Salgado (PMDB-MG), aliado de Renan.

A líder do PT, Ideli Salvatti (SC), diz ter tido a mesma impressão na reunião da bancada:

- O laudo da PF teve um impacto positivo e tranqüilizador.

Aliados de Renan dizem que a perícia não o incrimina ao tratar da rede de laranjas criada para emitir notas frias na venda de gado. Renan se dizia vítima, como outros fazendeiros, do frigorífico Mafrial, para quem teria vendido R$1,9 milhão em gado.

- O entendimento inicial era de que Renan lavou dinheiro por intermédio de uma rede de laranjas que teria construído. Agora é diferente. Existe uma rede de laranjas, mas que atua em todo o estado - observou Aloizio Mercadante (PT-SP).

Segundo o relator Renato Casagrande (PSB-ES), ele e Marisa Serrano (PSDB-MS) farão um relatório pela cassação, e o terceiro relator, Almeida Lima (PMDB-SE), um voto em separado, pela absolvição.

- Questionamentos ficarão em aberto, inclusive o vínculo dos repasses com os saques e o gasto maior que os rendimentos declarados. Se tinha mais gastos que renda declarada, é quebra de decoro - disse Casagrande.

O líder Arthur Virgilio (PSDB-AM) insistiu que Renan deixasse o cargo para que os processos abertos no Conselho contra ele ganhassem celeridade. Renan respondeu que sair seria "compactuar com a maledicência".