Título: Lula: quem especula 'quebra a cara'
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 22/08/2007, Economia, p. 25

Para Mantega, mercado ainda tem que digerir "mico", com perdas a instituições.

LINS (SP) e BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem que a crise das últimas semanas não passou de uma jogada especulativa, desencadeada por pessoas que apostaram em "títulos de terceira categoria" em busca de lucros fáceis. Para o presidente, quem especulou agora, assim como quem acha que pode ganhar dinheiro sem trabalhar, "vai quebrar sempre a cara".

- Essa crise também se dá porque os cidadãos apostaram em títulos de terceira categoria. É como se tivessem jogado em um cassino. Foram para ganhar fácil e quebraram a cara. Não é justo o povo brasileiro pagar pela irresponsabilidade daqueles que querem ganhar dinheiro na agiotagem. Não é humanamente justo, não é socialmente compreensível - disse, em inauguração de uma usina de biocombustível em Lins. - Quem tentou especular quebrou a cara, e vai quebrar sempre a cara quem acha que é possível ganhar dinheiro fácil, sem trabalhar.

Para Lula, a economia do país nunca esteve tão sólida, e o Brasil só chegou a essa condição porque evitou "saídas fáceis para as coisas".

- Só Deus sabe o que nós fizemos, em 2003, para poder chegar em 2007, e a gente ter US$160 bilhões de reservas.

O presidente disse que o Brasil deu um importante passo ao valer-se da desvalorização do dólar nos últimos anos para converter sua dívida externa em reais. E voltou a afirmar que não fará "loucuras" para mudar a política cambial.

Lula inaugurou a maior usina de biocombustível do país, do grupo Bertin, que produzirá 110 milhões de litros por ano a partir de sebo bovino. Dono de um dos principais frigoríficos do estado, o grupo investiu R$42 milhões.

- É biodiesel de picanha - brincou Lula, pouco depois de outra declaração bem-humorada. - Aqui jaz um boi.

Ministro diz que crise caminha para pouso suave

Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem acreditar que a turbulência caminha para soft landing (pouso suave). Apesar disso, em entrevista à TV Globo, afirmou que há uma reavaliação dos ativos em escala global:

- Os mercados ainda não se acomodaram de forma definitiva, têm que administrar uma série de papéis que tinham ficado insolventes. Você tem que digerir o mico. Nós temos o mico, que são esses papéis. Enquanto não digerir esse mico, com algumas instituições assumindo perdas, tem que haver desvalorizações de ativos e passar para um novo equilíbrio. As taxas de juros internacionais ainda estão elevadas e nós estamos sentindo algum reflexo aqui. Só não estamos pagando mais juros porque não estamos entrando em leilão (de títulos públicos).

(*) Enviado especial