Título: Investidores estrangeiros apostam contra o real
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 22/08/2007, Economia, p. 25

Negociação com contratos futuros de dólar sobe 288% entre maio e agosto, pressionando cotação no mercado à vista.

RIO e NOVA YORK. Pelo segundo dia consecutivo, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e o dólar subiram juntos, contrariando a lógica do mercado - em geral, quando as ações sobem, a moeda cai, e vice-versa. O Ibovespa, principal índice da Bolsa, subiu 1,24% e encerrou o dia aos 49.815 pontos, e o dólar teve valorização de 0,39%, para R$2,037. Segundo analistas, a pressão está partindo de investidores estrangeiros, que vêm apostando pesado na alta da divisa no mercado futuro, em que são projetadas cotações na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F). A presença desses participantes na ponta de compra dos contratos futuros de dólar (ou seja, apostando na alta da moeda), subiu 288% desde maio - de 87 mil em 21 de maio para 340 mil em 20 de agosto -, de acordo com o balanço diário da BM&F. Desde o agravamento da crise do mercado de hipotecas de alto risco dos Estados Unidos, houve um salto de 65%: de 206.035 em 20 de julho para 340.584 em 20 de agosto.

- Os investidores externos estão especulando contra. Antes, estavam otimistas e ganharam com isso. Agora, engordam as posições especulativas e forçam a alta do dólar - avalia o gerente de câmbio do Banco Rendimento, Hélio Ozaki.

Em maio, 77,05% dos estrangeiros com contratos futuros de dólar na BM&F apostavam na queda da moeda americana. Atualmente, em 74,79% dos contratos, os estrangeiros esperam alta do dólar. Já as instituições brasileiras estão divididas: em 58,2% dos contratos, espera-se queda. Em maio, 75,59% apostavam na alta do dólar.

Mercado começa a se dividir sobre reunião do Copom

Com a incerteza internacional, já há quem acredite que o Banco Central (BC) poderá interromper a trajetória de queda dos juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), nos dias 4 e 5 de setembro. Mas as maiores apostas são de corte de 0,25 ponto, segundo Felipe Cunha, chefe de análise da Brascan Corretora.

Desde sexta-feira, o Ibovespa já acumula alta de 3,75%, depois de somar 13,08% de perdas em seis pregões consecutivos. Ontem, na máxima, chegou aos 50.064 pontos.

Ontem o presidente do Comitê Bancário do Senado, Christopher Dodd, assegurou que o Federal Reserve (Fed, o BC americano) vai usar "todas as ferramentas disponíveis" para manter a liquidez nos mercados. Suas declarações foram feitas após uma reunião com o presidente do Fed, Ben Bernanke, e o secretário do Tesouro, Henry Paulson. Este pediu paciência aos investidores:

- Vamos resolver esse problema - disse, mas acrescentou que não há soluções rápidas.

As declarações surtiram efeito apenas parcial em Wall Street. O Dow Jones recuou 0,23%, enquanto o Nasdaq fechou em alta de 0,51%. Uma boa notícia veio da Europa: o francês BNP Paribas disse que pretende reabrir até o fim de agosto os fundos congelados no início do mês.

No Canadá, o presidente George W. Bush afirmou que há bastante liquidez nos mercados. E o Fed voltou a injetar dinheiro no sistema financeiro ontem: US$3,75 bilhões.

(*) Com agências internacionais