Título: Mais de US$200 bi pelo ralo no país
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 21/09/2008, Economia, p. 33

ABALO GLOBAL

No mundo, crise já varreu US$16 trilhões, ou seja, um PIB americano e um brasileiro

Felipe Frisch

O temor que tomou conta do mercado financeiro nos últimos meses, em decorrência da crise no sistema financeiro internacional, já levou embora das bolsas mundiais quase US$16 trilhões desde 23 de julho de 2007, quando a crise começou a se agravar nos Estados Unidos, até a última quinta-feira. Somente a bolsa brasileira perdeu aproximadamente US$295 bilhões (R$540 bilhões). Esse montante é quanto o valor de mercado (soma de preços de todas as ações negociadas) das bolsas do mundo foi reduzido no período.

Os dados, calculados pela Bloomberg não consideram, portanto, a recuperação da sexta-feira. No caso brasileiro, o Índice Bovespa registrou alta de 9,57% naquele dia. Como a variação do índice - formados por carteiras teóricas de alguns papéis - costuma ser próxima à do valor de mercado, o ganho do fim da semana passada deve representar uma recuperação de cerca de US$80 bilhões (R$146 bilhões). Ou seja, a perda até sexta-feira foi de cerca de US$215 bilhões (R$393 bilhões) no Brasil. Com isso, hoje, se alguém quisesse comprar todas as ações de empresas brasileiras na Bolsa, precisaria desembolsar cerca de US$1 trilhão (R$1,831 trilhão).

Bolsa da Rússia perdeu 50%

O valor perdido pelas bolsas mundiais é equivalente à soma do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos por um país) dos EUA (cerca de US$14 trilhões) com o brasileiro (R$2,6 trilhões, ou US$1,4 trilhão). Atualmente, as ações em circulação no mundo valem US$43,779 trilhões, tendo chegado a US$59,765 trilhões em julho de 2007. Foi quando fundos de investimento começaram a pedir socorro e bloquear saques.

Entre as principais bolsas do mundo, as perdas mais dramáticas, em termos proporcionais, foram da Rússia, que já perdeu 53,88% de seu valor de mercado. Em valores absolutos, no entanto, a maior perda ainda é das empresas americanas. Delas, os solavancos do mercado já levaram US$4,721 trilhões (R$8,644 trilhões), ou 24,67% desde julho de 2007.

A bolsa brasileira teve perda semelhante. A americana representa um terço das bolsas mundiais em valor de mercado. A brasileira, apenas 2,09%. Em maio deste ano, o valor de mercado das ações brasileiras chegou ao recorde histórico: US$1,581 trilhão (R$2,894 trilhões). De lá para cá, foram pelo ralo US$647 bilhões (R$1,184 trilhão).

Vale lembrar que, embora o valor de mercado seja importante, não tem impacto direto nos resultados das companhias. Mas indica a avaliação de investidores sobre as empresas e seus papéis. A dúvida agora é se os preços vão voltar aos níveis do início deste ano. Em maio, o Ibovespa atingiu o recorde de 73.516 pontos. Para o economista-chefe da Ágora, Álvaro Bandeira, a expectativa é de recuperação só no segundo semestre de 2009.

- A recuperação mundial vai vir quando os preços mundiais dos imóveis pararem de cair - diz.

É difícil dar um prazo para recuperação da economia mundial e, portanto, das ações, avalia Fábio Susteras, economista do private banking do Banco Real. Segundo ele, o mercado está olhando com lupa três indicadores. Um deles é a recuperação do PIB da China, sem o efeito dos Jogos Olímpicos, quando as indústrias ficaram paradas para evitar a emissão de poluentes. Outro é a reação dos preços das matérias-primas. E, por fim, a queda da taxa internacional de juros entre bancos, a Libor, hoje em 6% ao ano, de volta para entre 2% e 3% ao ano.

Número supera prejuízos de bancos

Para Alexandre Espírito Santo, estrategista da Way Investimentos, 2009 ainda deve ser "um ano difícil para o mercado de ações", que, segundo ele, só deve voltar a bater recordes em 2010. Isso, se a economia se recuperar, junto com as matérias-primas.

A perda de US$16 trilhões nas bolsas mundiais chama atenção por já ter superado em mais de dez vezes as próprias estimativas de prejuízos dos bancos com as hipotecas de má qualidade, as causadoras da crise. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que as perdas contábeis dos bancos cheguem a US$1,3 trilhão. Até o momento, US$519 bilhões já foram reconhecidos em balanços.

Para Marcelo Ribeiro, estrategista da Pentágono Asset, a desproporção entre os números mostra que as vendas de ações no Brasil e no mundo não são só para cobrir prejuízos das instituições no exterior. Do contrário, as perdas com as hipotecas já estariam cobertas e a volatilidade, reduzida. - As perdas nas bolsas vão continuar até serem descontadas todas as perspectivas negativas para as empresas. Ainda tem o crescimento global em desaceleração - diz.

Não é à toa que a crise atual é comparada à de 1929, só que com um mercado financeiro muito maior e com mais implicações.