Título: Crise pode fazer Brasil crescer só 2% em 2009
Autor: Oliveira, Eliane; Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 21/09/2008, Economia, p. 35

ABALO GLOBAL: Estimativas mais otimistas sugerem expansão de 3% no próximo ano, ante projeções de até 4%

Especialistas avaliam que freio na economia global prejudicará exportações brasileiras, já afetadas por real forte

Eliane Oliveira e Gustavo Paul

BRASÍLIA. O enfraquecimento da economia global terá impacto direto no desempenho do Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) brasileiro já no próximo ano. Alguns especialistas refizeram suas projeções, que chegam a uma taxa de 2%, ante a estimativa para 2008 de 5% a 5,5%, respaldada pelo próprio governo.

Um dos fatores responsáveis pela desaceleração da atividade econômica no Brasil consiste na redução do comércio mundial, com impacto direto nas exportações brasileiras. Nem mesmo a valorização do dólar frente ao real poderia compensar um cenário marcado pela forte baixa nas cotações das commodities - responsáveis por mais de 70% da pauta - e a recessão da americana. Para piorar, a outra parte do mundo desenvolvido, leia-se União Européia e Japão, está indo no mesmo barco.

Dependência dos EUA cai mas país não está imune

Um ponto a favor do Brasil é que a participação dos EUA no total das exportações brasileiras caiu de 23,93% em 2000 para 13,94% em agosto deste ano, uma queda de 41,75%, resultado da diversificação de mercados. Por outro lado, as compras da China aumentaram a parcela do país asiático na pauta de 1,97% para 9,11%, um crescimento de 36% no período. A questão é que existe a necessidade generalizada de os parceiros comerciais de venderem seus produtos que não serão mais absorvidos no mercado americano e, acredita o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, na União Européia e no Japão.

- Não temos para onde correr, se perdemos os países desenvolvidos. São eles quem sustentam o mundo - afirmou Castro, que prevê déficit comercial no ano que vem, por conta dessa desaceleração.

- Essa fragilidade global vai se refletir em desaceleração da economia brasileira e em superávit zero. O país não vai entrar em recessão, mas crescerá a taxas menores - reforçou o economista Fábio Silveira, da RC Consult.

Para Silveira, nos próximos dois anos a economia brasileira crescerá a taxas mais modestas do que as atuais, a uma média de 3% a 3,5%.

Fábio Kanzuc, professor da Universidade de São Paulo (USP), reviu para baixo a previsão de crescimento. Antes, ele acreditava que o Brasil cresceria 4% em 2009, variação inferior à registrada neste ano por causa do aperto na política monetária, mas agora acredita que o PIB deverá ter expansão entre 2% e 3%:

- Voltaremos a ter um crescimento medíocre - disse.

O consultor do Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Gomes de Almeida, disse que o Brasil vai sofrer seqüelas, com um crescimento menor das exportações em 2009. Por meio desse canal de contágio - o comércio externo - o Iedi avalia que a crise financeira vai deprimir o crescimento da economia brasileira também em 2009. As expectativas de crescimento em 2008 continuam em torno de 5%, mas em 2009 a tendência é que haja uma queda significativa.

- Pelo momento em que estamos vivendo, crescer 3% no próximo ano é uma previsão boa. Temos de ver se há disposição dos bancos em emprestar, da indústria em aumentar a produção e do consumidor em comprar - afirmou Almeida.

Analista prevê superávit de US$10 bi em 2009

Renato da Fonseca, gerente da unidade de pesquisa econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), também tem uma projeção pouco otimista. Para ele, em 2009, o Brasil vai pagar o preço do real valorizado, dos juros altos e da dependência das exportações nas commodities.

- Nos últimos anos houve a destruição do que construímos. As médias empresas exportadoras foram desestimuladas a manter as exportações, pelo dólar baixo e as altas taxas de juros, e abandonaram o barco. Investimentos deixaram de ser feitos e novos clientes não foram conquistados. Reconquistar o mercado internacional não é algo imediato e só deve se consolidar em 2010 - previu Fonseca.

O presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais (Sobeet), Luiz Afonso de Lima, calcula que o comércio exterior brasileiro terá um superávit em 2009 próximo de US$10 bilhões, mas com viés de baixa.

- O viés de nosso crescimento é de baixa e o comércio exterior vai dar sua contribuição a esse cenário.

Já Sérgio Valle, economista da MB Associados, acredita que o desempenho acanhado da balança comercial não deverá influir decisivamente no resultado da economia como um todo. A MB previa crescimento de 3,5% para 2009. Com o aumento da temperatura da crise financeira, a previsão é que a taxa seja menor, mas o consumo interno ainda será determinante para manter o PIB brasileiro.

- A redução no comércio internacional ajuda a desacelerar a economia, mas o ritmo de crescimento em 2009 será ditado pela política monetária e pelo volume de crédito na economia, que darão o tom do consumo doméstico.

COLABOROU Henrique Gomes Batista