Título: Herança maldita na Casa Branca
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 30/09/2008, O Mundo, p. 32
Promessas de candidatos correm risco diante da crise que atual governo deixará para sucessor
Marília Martins
Duas guerras com gastos mensais de US$10 bilhões, um déficit orçamentário que, caso o pacote de ajuda seja aprovado, deve chegar a US$1 trilhão, uma dívida pública de US$9,8 trilhões, uma crise econômica sem precedentes, desemprego em alta, salários em baixa. Quem quer que seja o próximo presidente americano, a herança do governo Bush parece tão pesada que boa parte das promessas de campanha dos candidatos corre sério risco de não sair dos panfletos distribuídos nas ruas. E o que é pior: como implementar uma agenda de mudanças, se o legado do antecessor compromete o orçamento com dívidas tão elevadas? Com um nível de reprovação acima de 70%, George W. Bush vai deixar o governo com o que muitos cientistas políticos chamam de uma ¿herança maldita¿.
Barack Obama promete oferecer um plano federal de cobertura de saúde para todos os americanos, mesmo aqueles que estejam desempregados. A adesão ao plano vai ser opcional, mas quem tiver filhos menores deverá obrigatoriamente prover plano de saúde para eles. Já John McCain promete cortes de impostos ainda mais profundos do que seu antecessor, sobretudo para as grandes empresas, na esperança de permitir mais contratação de mão-de-obra e mais investimentos para a recuperação da economia. Mas como cortar impostos ou investir num monumental plano de saúde quando as contas estão no vermelho?
¿ Do ponto de vista fiscal, o governo Bush é simplesmente catastrófico e vai deixar uma tremenda bagunça para o sucessor. Esta herança vai durar anos ¿ avalia Chris Edwards, do Instituto Cato, que avalia que a crise econômica vai ter efeito tão devastador no futuro quanto os ataques terroristas do 11 de Setembro.
O cientista político Bruce Cain, diretor do Institute of Governamental Studies, em Washington, acha que o nível de comprometimento do próximo governo vai depender da profundidade da crise econômica que já foi deflagrada com a quebradeira em Wall Street:
¿ O governo Bush vai ser avaliado no futuro bastante negativamente. Seu índice de popularidade afundou depois do Katrina e manteve-se baixo desde 2005. Duas guerras, sendo uma delas desastrosa, com a desmoralização sobre a busca de armas de destruição em massa no Iraque, fizeram do governo Bush um fiasco. E agora, com essa crise econômica sem precedentes e a flagrante perda de autoridade do presidente, seu legado tende a tornar-se maldito para o sucessor. Mas o tamanho do comprometimento do próximo governo vai depender do tamanho do buraco, ou seja, da gravidade da crise econômica e política ¿ avalia Cain.
Planos podem ser atrasados em 2 anos
Para ele, há cenários bem diferentes caso um candidato ou outro venha a vencer. Se for Obama, Cain acredita que haverá espaço já nos dois primeiros anos para que haja alterações importantes de rumo:
¿ Há promessas que podem ser cumpridas sem grandes gastos. É o caso da recuperação da credibilidade internacional. Um novo presidente vai imprimir um rumo diferente à política externa, vai realinhar o país no cenário internacional. Obama terá mais facilidade em promover esta mudança. McCain vai mostrar-se de imediato como a continuidade de Bush, por falta de condições políticas e econômicas de promover grandes mudanças ¿ diz ele.
Nos dois casos, as promessas de mais cortes de impostos de McCain e de investimento num plano federal de saúde, de Obama, deverão ficar para os dois últimos anos de mandato:
¿ Se a crise for moderada, em dois anos o novo presidente vai ter condições de começar a implantar projetos. Mas, no caso de uma recessão profunda, o sucessor de Bush não vai ter espaço para plano algum e vai limitar-se a tapar o buraco deixado ¿ avalia Cain.
Para o professor Lincoln Mitchell, da Faculdade de Ciência Política da Universidade de Columbia, em Nova York, o pior é que ainda não se sabe exatamente o tamanho do buraco:
¿ O governo Bush deixa um rastro de descrédito e de falta de liderança e de controle de gastos de tal ordem que seu sucessor vai ter sérias dificuldades para governar nos dois primeiros anos. E a crise na economia vai refletir-se na política: esta já é uma das campanhas mais disputadas. A falta de um acordo entre democratas e republicanos é resultado direto da disputa. O novo presidente vai herdar não só um buraco, mas também um país profundamente dividido sobre o que fazer para sair dele.
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