Título: De olho na sucessão
Autor: Batista, Henrique Gomes; Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 02/10/2008, Economia, p. 29
Discurso muda para blindar popularidade.
BRASÍLIA. A mudança de tom do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - antes otimista no primeiro momento diante da crise financeira americana e, agora, preocupado - foi conseqüência de uma avaliação pragmática do Palácio do Planalto. O discurso público mais cauteloso dos últimos dias foi para blindar a popularidade do presidente Lula e, com isso, evitar efeito político negativo em 2009, com a provável queda no ritmo de expansão do Brasil no próximo ano. Por isso, Lula deu declarações esta semana de que a crise é "séria e profunda", depois de ter dito que este era um problema do colega americano, George W. Bush.
Segundo um ministro com trânsito no Planalto, o próprio presidente Lula avaliou que, se insistisse que tudo estava bem na economia, ele passaria a ser o principal responsável por problemas na economia brasileira no próximo ano. Por isso, o governo decidiu mudar o discurso oficial e passar a culpar os Estados Unidos pela turbulência que pode ocorrer no Brasil. A percepção é de que o impacto da crise na economia no próximo ano vai afetar diretamente a aprovação do governo. No Planalto, a projeção otimista é que o crescimento em 2009 ficaria entre 3% e 4%, condicionado a um esforço extra para manter o crédito e o nível de investimentos no país. Na pior das hipóteses, a expansão ficaria abaixo de 3%, o que seria desastroso para o governo.
A avaliação de Lula é que sua capacidade para transferir votos em 2010 está ligada ao rumo da economia. E, assim, as chances de fazer o sucessor aumentam se a popularidade se mantiver nos atuais índices nos próximos dois anos.