Título: Lula a ministros: cuidem do crédito, o Natal está aí
Autor: Batista, Henrique Gomes; Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 02/10/2008, Economia, p. 29
Presidente exige financiamento a empresas e consumidores, mas nega pacote. Governo avalia cortar compulsórios.
BRASÍLIA. Em reunião com o grupo de coordenação política do governo ontem pela manhã, no Palácio do Planalto, em que o tema central foi a crise financeira mundial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou que não falte crédito ao setor produtivo brasileiro, aos exportadores e aos consumidores. Segundo relatou o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, Lula foi taxativo e disse:
- Cuidem do crédito. O Natal está aí. Temos de cuidar do crédito para os exportadores, para os industriais de outros setores que não são exportadores, para os agricultores e para as pessoas físicas também. Cuidem do crédito, olhem que o Natal está chegando e nós precisamos de crédito para as pessoas.
Bernardo disse que o presidente voltou a pedir empenho para que nenhuma obra, principalmente aquelas que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), seja ameaçada pelos efeitos da crise financeira internacional.
- O presidente nos disse que não podemos fingir que não existe uma crise - disse o ministro do Planejamento.
Menos restrições a captações externas é opção
De acordo com um ministro que participou da conversa, a reunião começou com a explanação do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Chegou-se à conclusão que não devem ser tomadas medidas agora, tendo em vista que não se sabe ainda como será o pacote de ajuda do governo americano.
- Não tem pacote - disse Lula em evento após a reunião de coordenação política.
Mesmo assim, os técnicos do governo estão encarregados de estudar um arcabouço preventivo, para que o Brasil seja atingido o mínimo possível pelo enxugamento do crédito internacional. Essa fonte informou que a crise foi comparada a uma epidemia de gripe. Segundo ela, "o Brasil pode gripar, mas ainda não está gripado."
Técnicos das áreas econômica e de comércio exterior do governo revelaram ontem que, entre as medidas estudadas para enfrentar a crise estão: redução do compulsório; permissão para que os bancos possam usar títulos do Tesouro como garantias de empréstimos; diminuição das restrições para captações externas; aumento dos repasses ao BNDES; expansão dos recursos do Programa de Financiamento às Exportações (Proex), além de venda de reservas por parte do Banco Central.
Lula quer medidas clássicas, nada heterodoxas. O presidente disse que espera ver todas as opções no papel em uma semana. Mas segundo os técnicos, qualquer anúncio não deve sair antes de 15 dias. O período é necessário para medir quais as restrições ao crédito, quanto subiram os juros para financiamento aos exportadores e quanto falta de dinheiro.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, ressaltou que, desde o início da crise, já estão sendo tomadas medidas para blindar o país. Ele citou os leilões de dólares promovidos pelo Banco Central e a redução dos compulsórios bancários. Mantega afirmou que o governo está estimulando os bancos a liberar créditos para viabilizar as exportações e que serão antecipados recursos para a agricultura, via Banco do Brasil. Outras medidas, garantiu, poderão ser tomadas:
- Se isso não for suficiente, novas medidas serão tomadas de modo a irrigar essas linhas de crédito. Se surgir o problema, vamos enfrentá-lo.
Mantega: não faltarão recursos para o PAC
Segundo ele, a determinação do presidente é dar sustentação a todos os investimentos e créditos. O BNDES vai cumprir o programa de liberação de R$90 bilhões e serão colocados mais recursos no Fundo de Marinha Mercante (FMM), para a construção de navios. Além disso, ele garantiu que não faltarão recursos para o PAC. Mantega também criticou as avaliações de que a economia poderá crescer apenas 2% em 2009.
- Isso é impossível, porque só com o impulso que passará de 2008 para 2009 a economia vai crescer no mínimo 2,5%. Ou seja, se nós ficarmos de braços cruzados, a economia crescerá 2,5%. E não vamos ficar de braços cruzados - disse Mantega. - Haverá pacote, mas nos EUA. Quem precisa de um pacotão são os americanos. Pacote é coisa do passado.
A determinação dada por Lula aos ministros é para que a equipe econômica trabalhe para evitar, ou ao menos reduzir, o impacto da crise no Brasil.
- Não podemos tratar essa crise com desdém. Mas também não podemos assumir uma coisa que não é nossa. O certo é que até agora o Brasil não está gripado. Isso não significa que não podemos ser atingidos pelo contágio mundial - disse o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro.
Além dele, participaram da reunião de coordenação política com Lula o vice-presidente José Alencar e os ministros Guido Mantega (Fazenda), Paulo Bernardo (Planejamento), Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (Justiça), Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência), Franklin Martins (Comunicação Social).
COLABOROU Luiza Damé