Título: Na eleição de São Paulo, os rumos para 2010
Autor: Galhardo, Ricardo; Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 05/10/2008, O País, p. 23
Serra tenta pavimentar caminho para a sucessão do presidente Lula; Marta pode se fortalecer para disputar governo.
SÃO PAULO. Na disputa entre Marta Suplicy (PT), Gilberto Kassab (DEM) e Geraldo Alckmin (PSDB) pela prefeitura paulistana, o pano de fundo é a sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De um lado, o tucano José Serra tenta viabilizar sua candidatura presidencial com o apoio à reeleição de Kassab. Do outro, o PT procura, caso Marta vença, ganhar mais cacife para impor aos demais partidos aliados seu candidato à sucessão de Lula. No jogo político, sair vitorioso ou derrotado na cidade impõe aos que pretendem disputar a sucessão de Lula um rearranjo de forças, dentro e fora de seus partidos.
Segundo analistas e políticos, a vitória de Marta daria mais força ao PT para ter um candidato seu na disputa de 2010. O desempenho da ex-ministra pode ser uma forma de dimensionar a capacidade de Lula transformar sua popularidade em votos.
- É uma prova, e muito dura, já que na eleição municipal o eleitor está voltado para as questões locais e não para a agenda federal - diz o cientista político Roberto Romano.
- São Paulo é a cidade mais importante do país e, além disso, tem uma dimensão simbólica. Em 2008, estamos, em larga medida, construindo 2010 - diz o deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP), secretário-geral do partido.
Para o também cientista político Fernando Abrucio, a vitória de Marta mudaria o equilíbrio interno de forças no PT.
- Se Marta ganhar, será cada vez mais o PT da Marta em vez do PT do José Dirceu.
"O PT de São Paulo sabe que a candidata de Lula é Dilma"
O secretário nacional de Formação Política do partido, Joaquim Soriano, concorda.
- Por saber que não consegue ganhar só com os votos dos mais pobres, sem a classe média, Marta tem dialogado com setores fora de seu grupo.
A eventual vitória de Marta aumenta rumores sobre a possibilidade de a ex-ministra disputar o governo paulista, embora ela afirme que cumpriria todo o mandato de prefeita, até 2012. Mas, para Abrucio, seu fortalecimento não significa necessariamente mudanças na rota do partido para a sucessão de Lula.
- O PT de São Paulo sabe que a candidata de Lula é Dilma Rousseff - diz Abrucio.
Os maiores reflexos da disputa paulistana, no entanto, são no tucanato. Uma eventual vitória de Kassab é vista como uma vitória pessoal do prefeito, mas também aumenta o cacife de Serra na disputa com Aécio Neves pela indicação do PSDB. Tanto Serra como Aécio partiram para uma maratona por várias cidades do país.
- É uma discussão que devemos ter daqui a um ano, quando a poeira baixar. Os dois estão em campanha pelo PSDB - diz o presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra (PE).
Ao mesmo tempo, se a parceria com o DEM é importante para Serra em São Paulo, o DEM desidrata Brasil afora. São poucas as chances de vitória em capitais como Rio, Salvador, Fortaleza e Cuiabá. A aliança PSDB-DEM, diante de uma bem-sucedida eleição de nomes da base governista nas prefeituras brasileiras, não aparece mais como tábua de salvação para o presidenciável de oposição ao governo.
Serra deverá enfrentar pouca (ou nenhuma) disposição de Alckmin para ser seu cabo eleitoral em 2010. Mas esse argumento não tem tirado o sono do governador, principalmente diante do fato de que Alckmin parece não conseguir manter o recall dos votos à Presidência no primeiro turno em São Paulo, em 2006, quando ganhou de Lula.
A rusga entre os dois encontra explicação na trajetória de Alckmin no PSDB, marcada por sucessivas disputas, principalmente com Serra. E vem de antes de 2006, quando Alckmin o tirou do páreo na disputa presidencial. Quando foi escolhido candidato a vice-governador pelo próprio Mario Covas, Serra teria sido um dos que tentaram evitar a composição da chapa puro-sangue. Há, desde então, um ódio velado entre os dois.