Título: Crise externa, peso extra no caixa das empresas
Autor: Frisch, Felipe
Fonte: O Globo, 05/10/2008, Economia, p. 41

Com dólar caro, dívida das companhias cresce R$64 bi em 2 meses.

Felipe Frisch

Além das desvalorizações das suas ações, da dificuldade de captar recursos, e do cada vez mais intenso desaquecimento da economia mundial, as empresas brasileiras começam a sentir o impacto da crise do sistema financeiro mundial por meio de suas dívidas no exterior, em dólar. Com a alta de 31,24% da moeda americana desde o início de agosto - quando atingiu seu piso desde janeiro de 1999 -, a dívida em dólar dessas companhias aumentou em R$64,647 bilhões. Ou seja, em apenas dois meses, de 1º de agosto, quando o dólar era cotado a R$1,559, até a sexta-feira, 3 de outubro, quando a moeda encerrou valendo R$2,046, maior cotação desde agosto de 2007.

Com isso, a dívida total em moeda estrangeira dessas empresas alcançou R$271 bilhões, considerando os valores devidos informados nos últimos balanços divulgados, referentes ao segundo trimestre, que totalizavam US$133 bilhões. Os dados foram levantados pela consultoria Economática a pedido do GLOBO e consideram a dívida total em moeda estrangeira na época. Com exceção do setor financeiro, cujos dados foram levantados tendo como base os valores de empréstimos (captações) no exterior de curto e longo prazo. O crescimento da dívida acaba sendo mais um fator para companhias adiarem investimentos.

Empresas têm 49% do passivo em dólar

As empresas com maiores dívidas no exterior são as gigantes Vale e Petrobras, com mais de US$15 bilhões cada. Em seguida, vêm Gerdau, Itaú, Eletrobrás. Os setores mais endividados em dólar são, além do financeiro, o siderúrgico, o de petróleo e das mineradoras. No total, segundo os dados informados nos balanços, 133 empresas com capital aberto - de um universo de 443 companhias com ações negociadas em bolsa - têm dívida em dólar, que equivale a 48,63% da dívida total, segundo o estudo.

Apesar das bruscas oscilações recentes da moeda americana, a simples presença de dívida em dólar não significa que as companhias estão expostas e terão perdas financeiras imediatas. A cotação fará diferença na hora de pagar os compromissos, dependendo de como estiver na época. E isso se as empresas não estiverem protegidas contra a alta da moeda americana, seja por exportarem, seja por terem feito operações de troca da dívida - os chamados swaps, em que se troca o indexador da dívida, no caso o dólar por uma taxa de juros em reais. Ou, ainda, por terem firmado contratos futuros de dólar na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F), garantindo a compra da moeda a um preço determinado e se protegendo da alta da moeda americana.

É o caso de 38,6% das empresas brasileiras, segundo o pesquisador José Luiz Rossi Júnior, do Ibmec São Paulo, que analisou 175 empresas de 1996 a 2007. Segundo ele, esse é o percentual de companhias brasileiras que utilizam os chamados derivativos, contratos de "proteção", contra a alta ou a queda de algum ativo, indicador ou moeda. Rossi Júnior calcula que 25% das empresas brasileiras estejam, de alguma forma, expostas à oscilação da moeda americana. Segundo ele, 13% se protegem da queda do real (alta do dólar) e 12%, da valorização do real (queda do dólar), caso das exportadoras, que se beneficiam de uma moeda estrangeira mais cara.

- Sempre vai ter risco, algumas empresas não estão 100% protegidas, mas, de modo geral, as companhias do país estão mais protegidas - diz o pesquisador que acompanha a evolução das empresas nesse período.

Ele lembra que, em 1996, apenas 6,9% das companhias analisadas se protegiam da variação do dólar no mercado financeiro. O número começou a aumentar com mais força a partir de 1999, com a maxidesvalorização cambial. E atingiu seu pico em 2002 - com o risco eleitoral, que fez a moeda americana chegar a R$3,99 -, quando 38,7% das empresas passaram a se proteger da moeda americana.

Endividamento no exterior é menor

As empresas brasileiras hoje são muito menos endividadas em dólar do que já foram no passado, lembra o economista-chefe da corretora Ágora, Álvaro Bandeira.

- Muitas resgataram dívidas, aproveitando o dólar mais baixo - diz.

Outras aproveitaram para aumentar investimentos.

- Essas, ou seguem ou amortecem os investimentos agora - avaliou.

A dúvida agora de muitos analistas e investidores é se essas empresas que devem se defender da moeda americana não estariam especulando no mercado financeiro. Recentemente, Aracruz e Sadia reconheceram perdas financeiras vultosas por terem se exposto ainda mais, via contratos futuros, em vez de se proteger.

Algumas companhias têm áreas financeiras semelhantes às tesourarias de bancos. Para Rafael Moysés, gestor da Umuarama, "o mercado agora está de olho" nas empresas que costumam ter ganhos financeiros (não-operacional) fortes em comparação com os ganhos da atividade da companhia.

EXPORTADORES PREVÊEM VENDA ATÉ 15% MENOR, na página 42.

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