Título: Grandes bancos têm risco mais baixo
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 05/10/2008, Economia, p. 42
Legislação mais rigorosa inibe exposição excessiva de instituições no Brasil.
SÃO PAULO. Uma regulação mais rigorosa tem preservado bancos brasileiros do contágio de problemas que levaram à falência instituições financeiras nos Estados Unidos e na Europa. Além de não terem em carteira papéis lastreados em hipotecas de alto risco - que desencadearam a crise -, os bancos no país têm menos margem de manobra para se expor a riscos.
O padrão internacional de risco, definido pelos bancos centrais (BCs) no Acordo da Basiléia, estabelece que as instituições podem ter até 12,5 vezes o valor de seu patrimônio em ativos de risco. No Brasil, o BC adotou o multiplicador de nove vezes: para cada R$10 que os acionistas aportam, o banco pode emprestar R$90. Os outros R$80 são captados no mercado.
- Os bancos no Brasil estão muito mais protegidos - afirma David Hastings, professor de finanças da Escola de Administração de Empresas da FGV-SP.
Mesmo com o crédito no país crescendo a mais de 30% ao ano, a maioria dos bancos opera abaixo do limite estipulado pelo BC. Entre os dez maiores, o Safra é o mais alavancado (exposto a risco, no jargão do mercado), com ativos 8,41 vezes o patrimônio em ativos de risco. Banco do Brasil, Bradesco, HSBC, Real, Unibanco, Santander e Votorantim operam na faixa entre sete e oito vezes. Itaú (5,85 vezes) e Caixa Econômica Federal (4,91) são ainda menos expostos.
- Os bancos brasileiros ainda são conservadores - diz Ricardo Baldin, sócio da PricewaterhouseCoopers.
Outro fator importante, destaca Hastings, é que as regras de alavancagem valem para todas as instituições no Brasil. Nos EUA, bancos de investimento e empresas de financiamento imobiliário não se submetem ao Acordo de Basiléia. O Lehman, no início do ano, operava com alavancagem de 31 vezes.
BC monitora liquidez do sistema financeiro
- Isso, aliado à hipoteca múltipla (pela qual americanos faziam mais de um empréstimo dando o mesmo imóvel como garantia) está na base da encrenca - diz Hastings.
Domingos Pandeló, professor do Ibmec-SP, pondera que maior rigor regulatório não garante que não haverá problemas. Tanto que o corte nas linhas externas e o estreitamento da liquidez lá fora atingiram os bancos de menor porte no país.
- Os bancos brasileiros podem ter balanços piores nos próximos trimestres, caso a desaceleração do crédito seja mais intensa - adverte Pandeló.
Para evitar gargalos de liquidez, o BC acompanha permanentemente o caixa dos bancos, por meio do Sistema Brasileiro de Pagamentos (SBP), diz José Miguel Santacreu, analista da Austin Rating. Isso permite monitorar os recursos disponíveis e o nível de risco dos bancos.