Título: Cabral e Paes articulam bloco de esquerda
Autor: Lima, Ludmilla de; Menzezes, Maiá
Fonte: O Globo, 07/10/2008, O País, p. 3
Peemedebistas recebem apoio formal do PSB e de Lupi, do PDT, e conversam com dirigentes petistas.
Atrás do apoio formal dos partidos à campanha de Eduardo Paes (PMDB), o governador Sérgio Cabral tomou para si a função de articulador político do candidato a prefeito. A estratégia é atrair as legendas aliadas do governo do estado e criar uma frente com siglas de esquerda. A casa de Paes, na Barra da Tijuca, virou ontem o quartel-general político das negociações, lideradas por Cabral. O empenho rendeu frutos: o PSB já declarou apoio oficial e o ministro do Trabalho e presidente licenciado do PDT, Carlos Lupi, disse que o acordo com o PMDB é a tendência natural do PDT.
Cabral convocou para a reunião na casa de Paes dirigentes petistas: deputados, vereadores e colaboradores de seu governo. Alberto Cantalice, presidente estadual do PT, e Sebastião Alberes, presidente municipal, participaram do encontro. A quase unanimidade do partido contra Fernando Gabeira (PV), que o levaria a apoiar Paes, esbarra, porém, na posição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ainda reticente em relação ao candidato do PMDB, por causa de sua atuação durante o escândalo do mensalão, quando foi relator adjunto da CPI dos Correios. Está previsto para hoje um encontro entre Lula, que tem agenda no Rio, e Paes, que tentará contornar a resistência do presidente a seu nome.
Paes disse estar otimista:
- Todos temos embates na política e sabemos superar isso. O presidente Lula tem demonstrado carinho enorme pelo Rio. Sabe que a nossa candidatura representa união, que tem como prioridade a cidade. Não tenho dúvidas de que vamos construir essa aliança com tranqüilidade.
As negociações para o segundo turno começaram cedo na casa de Paes. Pouco antes das 10h, Cabral chegou. O discurso dos que encontraram o governador foi único: deixar clara a polarização política entre as duas candidaturas, numa prévia de 2010. De um lado, Gabeira, aliado dos tucanos, e que deve ter apoio do DEM; de outro Paes, do PMDB que integra a base de Lula. O secretário estadual de Ciência e Tecnologia, Alexandre Cardoso, defende uma "aglutinação da esquerda" em torno do peemedebista, contra o PSDB e o DEM do prefeito Cesar Maia.
- Entendemos que Gabeira tem todo o conteúdo da candidatura do Cesar Maia. A esquerda tem que se aglutinar. Ele não tem como fugir do PSDB e do DEM. O Gabeira vai brigar com o Lula - disse Cardoso.
O discurso parece ter sido ensaiado. Carlos Lupi, depois da reunião, confirmou que Cabral quer um "palanque de esquerda" na cidade.
- Está caracterizada no Rio uma disputa entre as forças que representam o avanço, as forças progressistas, e as forças que representam o conservadorismo. Porque, no fundo, Gabeira é o candidato do Cesar Maia, do PSDB do Marcello Alencar. Ele quer dar uma de independente, mas depende de todas essas forças, que são as mais conservadoras que existem no Brasil. Acho que isso acaba polarizando, criando uma nacionalização - disse Lupi.
Ao lado do candidato a vereador eleito Brizola Neto, presidente municipal do PDT, Lupi disse que o partido tomará posição oficial sobre o apoio a Paes até o fim da semana. Mas adiantou que a aliança é uma "tendência natural". Embora aposte na nacionalização, Lupi disse crer na ausência de Lula na campanha do Rio.
Após a saída de Lupi, no início da tarde, chegou à casa de Paes a petista Benedita da Silva, secretária estadual de Assistência Social. Foi acompanhada dos vereadores eleitos Adilson Pires e Reimont, e do deputado estadual Gilberto Palmares. Em seguida, o deputado federal Jorge Bittar (PT) se uniu ao grupo.
Indagada se o fato de o PT integrar o governo Cabral facilita o acordo com o PMDB, Benedita disse que os petistas "têm que conversar":
- É da base do governo, tivemos uma belíssima performance juntos no Estado do Rio de Janeiro, PMDB-PT e PT-PMDB, mas a gente precisa conversar.
O vice-governador, Luiz Fernando Pezão, que foi à casa de Paes, disse que a diferença entre as campanhas de Gabeira e Paes estará na forma como o peemedebista tratará os partidos:
- Faremos uma ampla aliança. Diferente do Gabeira, que está desprezando os partidos, estamos valorizando os partidos. Esse negócio de desprezar já vimos o que deu com o Collor. Consultamos todos os partidos. Não adianta acertar apenas com uma figura - disse Pezão.
COLABOROU: Cássio Bruno