Título: BC faz ofensiva mas não consegue conter dólar
Autor: Rangel, Juliana; Novo, Aguinaldo
Fonte: O Globo, 11/10/2008, Economia, p. 36

Moeda fecha em alta de 5,28%, a R$2,314, e volta ao mesmo patamar de maio de 2006.

Em mais um dia de pânico nos mercados, o dólar voltou a disparar ontem e bateu sua maior cotação desde maio de 2006. O Banco Central usou de toda a sua artilharia fazendo um leilão de swap cambial (em que paga aos interessados a variação do dólar em troca de uma taxa de juros) de US$589 milhões, e mais três intervenções que somaram US$700 milhões, vendendo parte de suas reservas. A ofensiva não foi suficiente: a moeda subiu 5,28%, para R$2,314. Desde a mínima do ano, em 1º de agosto, a alta já chega a 48,4%, ficando em 13,09% na semana e em 30,2% em 2008.

Com o leilão de swaps e de dólar à vista ontem, a autoridade monetária já injetou US$8,513 bilhões no mercado em apenas três semanas.

Na BM&F, teto de variação foi alcançado três vezes

Segundo operadores, os negócios se mostraram pressionados desde o início do dia. Nas primeiras transações, a moeda já era cotada a R$2,315 no mercado à vista, com alta de 5,90%. Na Bolsa de Mercadorias & Futuros, o teto de variação máxima permitida, de 6%, foi alcançado na abertura e por duas outras vezes ao longo do dia. A Bolsa não registra propostas quando o limite é atingido.

- O mercado está maluco, sem parâmetro. Não estou entendendo mais nada - desabafou Francisco Carvalho, gerente de câmbio da corretora Liquidez.

Ele avalia que, apesar de a especulação estar forte - quem aposta na alta da moeda evita vender, pressionando a cotação para cima -, existe uma procura real pela divisa. A pressão seria de empresas dispostas a desfazer posições "vendidas" (ou seja, em que apostavam na queda da moeda) no mercado futuro. Para antecipar a liquidação desses contratos, já que não sabem qual será a cotação em alguns meses, elas compram a moeda nos mercados à vista e futuro.

Para o diretor de câmbio da NGO Corretora, Sidnei Nehme, essa pressão, teoricamente, só terá fim quando os contratos forem vencendo e tiverem que ser honrados, com as empresas assumindo os prejuízos.

Um operador lembra que também há demanda de investidores estrangeiros que saem da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Eles compram a divisa para enviar dinheiro ao exterior, a fim de cobrir eventuais prejuízos com outros investimentos.

- Sem contar multinacionais, que mandam dólares para cobrir perdas de suas matrizes - disse.

Nos leilões de ontem, a primeira venda da divisa aconteceu às 10h33m, com a moeda negociada a R$2,275. Às 12h45m, a entidade monetária fez um leilão de swap cambial, programado desde o dia anterior, no qual vendeu, em dois lotes, 16.050 contratos. Destes, foram absorvidos 11.940.

Às 15h31m, o BC voltou a vender a moeda, a R$2,311. A terceira oferta foi às 16h12m, perto do fechamento do câmbio, com o dólar saindo a R$2,318.

Nenhuma das ações, no entanto, foi suficiente para arrefecer a alta. Perto do fechamento, a moeda alcançou a cotação máxima do dia, de R$2,316, com ganhos de 5,94%.

Apesar do clima de tensão, o diretor de câmbio da corretora Souza Barros, Renato Rabello, disse que as recentes medidas do BC para dar liquidez ao mercado (aumentar a circulação da moeda) já surtiram algum efeito.

O giro bancário ontem foi de US$2,2 bilhões, acima do movimentado nos últimos dias. Mas o volume ainda está abaixo da média de US$3,5 bilhões a US$4 bilhões.