Título: Candidato não será escolhido por faixa etária
Autor: Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 12/10/2008, O País, p. 18

Governador de Minas assume que pode disputar a Presidência em 2010 e diz que PSDB precisa de alianças para vencer.

Vitorioso ou não na missão de eleger o empresário Márcio Lacerda (PSB) prefeito da capital mineira, o governador tucano Aécio Neves avisa que não abrirá mão do seu papel no processo sucessório de 2010. Com postura de candidatíssimo a candidato do PSDB à Presidência da República, diz que nem sempre uma derrota eleitoral representa uma derrota política, e que não terá problema em reconhecer uma derrota, se ela acontecer. Pela primeira vez, Aécio admite abertamente a possibilidade de disputar a sucessão presidencial, mas diz que não dorme e acorda pensando nisso. "Não trabalho com essa obsessão", disse, em mais de uma hora de conversa com O GLOBO, na manhã de quinta-feira passada, no Palácio das Mangabeiras, residência oficial.

- Sempre atuei no sentido de construir a unidade do partido e farei isso novamente. Essa convergência poderá se dar em torno do meu nome, é uma possibilidade.

E, numa referência direta ao colega paulista José Serra, outro presidenciável do PSDB, afirma que a capacidade de encarnar um projeto novo para o país e de aglutinar forças políticas em torno dessa proposta pode ser tão ou mais importante do que aparecer como líder em uma pesquisa de opinião:

- Ninguém será candidato pela simples razão de querer.

Para Aécio, dificilmente o sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguirá ser eleito sem ter uma posição forte em Minas, onde sua gestão registra índices de aprovação próximos dos 90%.

Adriana Vasconcelos

O que o senhor acha da avaliação de que foi um dos derrotados do primeiro turno das eleições municipais?

AÉCIO NEVES: Em eleição, você tem de estar preparado para vencer e para perder. Mas, quando se tem convicção da tese que defendemos, não acho que alguém perde. Construímos em Belo Horizonte uma grande aliança, um projeto político que busca superar esse maniqueísmo que coloca de um lado o PT e, do outro, o PSDB, no qual quem perde cria permanentemente dificuldades para que quem vence governe. Independentemente do resultado eleitoral, que espero que seja em favor do nosso candidato, essa é uma tese que repercutiu positivamente no Brasil.

Os mineiros não teriam se rebelado contra a tese de que é possível transferir votos numa eleição?

AÉCIO: Talvez nos tenha faltado capacidade de transmitir que o que está em jogo não é a eleição de um candidato apoiado pelo prefeito (Fernando Pimentel, do PT) e o governador, mas o projeto de Minas, que representa a tese da convergência. Pessoalmente, não posso me sentir derrotado, já que o candidato que lançamos era desconhecido até pouco tempo atrás e chegou na frente no primeiro turno. O outro (Leonardo Quintão) fez campanha dizendo que me apóia.

Qual o impacto de uma eventual vitória de Leonardo Quintão (PMDB) nos planos do senhor e do prefeito Pimentel para 2010?

AÉCIO: Essa construção política não foi feita com base em conveniências eleitorais. É conseqüência de cinco anos de trabalho conjunto do governo do estado com a prefeitura, que conquistou avanços significativos para a cidade. Agora, se perdermos essa eleição, serei o primeiro a assumir a derrota, mas 2010 só será discutido mais na frente. Continuarei defendendo a tese da convergência. Eu não terei problema em admitir uma eventual derrota. Mas nem sempre uma derrota eleitoral é uma derrota política. Eu prefiro vencer as eleições e acredito que temos condições para isso. Mas quero vencer ou perder com um projeto correto.

O senhor diz que o PSDB estará unido em 2010. Numa chapa puro sangue com Serra e Aécio?

AÉCIO: A unidade do PSDB é o mais vigoroso instrumento que temos para agregar outras forças políticas e disputar com chances as eleições. Mas nenhum partido terá condições de vencer solitariamente ou sem um conjunto de alianças. Seria uma pretensão exagerada do PSDB achar que poderá prescindir de outros apoios importantes nas eleições. E outros apoios pressupõem, inclusive, uma parceria na composição da chapa. A divisão do PSDB seria a antecipação do seu fracasso.

Qual deve ser o critério para a escolha do candidato?

AÉCIO: Não será apenas um. O candidato do PSDB será aquele que conseguir encarnar um projeto novo para o país, otimista, com propostas muito claras no campo das reformas. Mais importante do que definir o candidato é mostrar o que ele representa. Temos de mostrar a diferença de uma candidatura lançada pelo PSDB e outra do PT.

Até que ponto a crise financeira mundial terá impacto nas eleições de 2010?

AÉCIO: Estará decretado o fim do ufanismo que tomou conta do governo federal, especialmente nos últimos meses, achando que o Brasil era uma ilha de prosperidade num mundo em crise. Infelizmente, o governo Lula não aproveitou uma conjunção de fatores positivos para avançarmos mais. Desperdiçou a oportunidade de fazer reformas importantes; preferiu-se o caminho do alargamento dos gastos, do acomodamento dos companheiros. Quando as pessoas perceberem que essa não é uma crise virtual, acho que a tese da qualidade da gestão pública terá pela primeira vez um papel de destaque na eleição.

Esse quadro não derruba sua tese de que o melhor para o PSDB será apresentar em 2010 um candidato pós-Lula e não anti-Lula?

AÉCIO: A campanha do PSDB não pode ser centrada na figura do anti-Lula. O presidente cumpriu o seu papel e, por mais que a crise seja grave, será lembrado como alguém que trouxe avanços. Faço uma análise, que alguns dos meus companheiros não gostam e que nossos adversários detestam, de que no futuro os analistas políticos vão tender a compreender os governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso e Lula como um só período da história política.

Pela primeira vez em 20 anos Lula não será candidato. A ministra Dilma Rousseff, com o apoio do presidente, será uma candidata forte?

AÉCIO: Tenho um enorme respeito pela ministra Dilma. Ela é o esteio do governo, e reconheço que tem sido uma interlocutora importante de Minas. Agora, eleição é outra história. Só o tempo é que vai dizer se essa mesma eficiência que demonstra nas suas ações ocorrerá numa campanha eleitoral, que traz outros elementos. Mas vou repetir que não existe Rei Midas na política brasileira. Nós estamos vendo isso aqui em Belo Horizonte, onde meu governo tem uma avaliação positiva que se aproxima dos 90%, mas nosso candidato teve metade desse índices em votos.

Até que ponto o carisma pode decidir uma eleição?

AÉCIO: Carisma, certamente, não prejudica ninguém, mas ele precisa vir recheado de conteúdo. As pessoas estão atentas às companhias dos candidatos. Não acho que apenas a simpatia e o carisma decidam uma eleição.

Defensores da candidatura de Serra em 2010 argumentam que essa seria sua última chance e que o senhor, por ser jovem, tem tempo para esperar. Há ainda quem diga que, para ser candidato, o senhor teria de abrir mão de sua vida social.

AÉCIO: Prefiro ficar com a avaliação dos mineiros. Nas duas eleições majoritárias de que participei em Minas obtive a maior votação de todos os tempos no estado. Quanto ao Serra, ele terá outros argumentos mais valiosos para construir sua candidatura. Ninguém será candidato a presidente pelo PSDB pela simples vontade de ser. Obviamente que os indicadores de pesquisa são importantes, por mais que possam incorporar um "recall" para aqueles que já disputaram eleições nacionais, mas a capacidade de apresentar uma proposta nova e de aglutinar outros apoios para esse projeto é tão ou mais importante que um simples dado de pesquisa.

E ocorrerá essa discussão no PSDB?

AÉCIO: O PSDB terá maturidade para fazer essa avaliação, acho que no segundo semestre do ano que vem, agregando todos esses componentes. Quem encarnar essas condições, seja o Serra ou outro nome, terá o meu apoio. Mas, se chegarmos à conclusão que não é o melhor candidato para vencer as eleições, não será a faixa etária ou a vontade pessoal que vai definir essa candidatura.

Qual a força de Minas numa eleição presidencial?

AÉCIO: Minas terá um papel extremamente decisivo, ao lado de São Paulo e Rio. Será muito difícil para qualquer candidato vencer as eleições se não tiver uma posição forte em Minas.

Qual a chance de o senhor sair do PSDB se não conseguir a vaga de presidenciável?

AÉCIO: Eu me sinto honrado de perceber que alguns importantes partidos gostariam de me ter em seus quadros. Mas me sinto muito confortável no PSDB e acho que posso ajudar o partido a aglutinar no seu entorno forças políticas que estão hoje sob o guarda-chuva do presidente Lula, mas que não estarão necessariamente apoiando um candidato do PT. A definição do PSDB não será por imposição. O PSDB não é mais um partido de um ou dois caciques, não é mais um partido de um estado, mas nacional.

O senhor gostaria de ser candidato a presidente?

AÉCIO: Sinceramente, não trabalho com essa obsessão. Talvez seja essa a minha vantagem. Não acordo e durmo pensando nisso. Mas não abrirei mão de ter um papel nesse processo sucessório, na linha de construir um projeto pós-Lula, sem rancor e radicalismos. Sou um construtor de pontes, não dinamitador. Sempre atuei no sentido de construir a unidade do partido, e farei isso novamente. Essa convergência poderá se dar em torno do meu nome, é uma possibilidade. Mas, se não for, serei o primeiro a dar apoio a um outro nome que se mostre viável, menos pela vontade pessoal e mais por sua capacidade de vencer as eleições.

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