Título: FMI muda de tom: agora, pior pode ter passado
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Fonte: O Globo, 14/10/2008, Economia, p. 21

Para Strauss-Kahn, "graças às decisões tomadas, o ápice da crise talvez já tenha ficado para trás".

PARIS, BERLIM e WASHINGTON. Dois dias depois de apontar que o sistema financeiro global estava à beira de um "derretimento estrutural" e cinco dias após a divulgação de relatório revisando para baixo as estimativas de crescimento da economia mundial e destacando que a atual crise financeira não tinha precedentes e o pior ainda estaria por vir, o Fundo Monetário Internacional (FMI) adotou ontem um tom mais otimista. O diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, afirmou que o pior da crise financeira já pode ter passado. Segundo ele, o Fundo tiraria lições da crise no momento de elaborar propostas para a reforma do sistema financeiro internacional.

- Acredito que, graças às decisões tomadas, o ápice da crise talvez já tenha ficado para trás. Isso é o que veremos nos próximos dias - disse Strauss-Kahn. - As decisões tomadas nos últimos três dias têm os elementos necessários para tranqüilizar (os mercados).

O diretor-gerente do Fundo afirmou que, com os planos anunciados no fim de semana pelo Eurogrupo e pelo G-7 (grupo dos países mais ricos), não existe motivo para que a confiança não retorne ao sistema financeiro.

- Penso que (a confiança) deve voltar. Penso que hoje não há razão, nem para os depositantes, nem para os que atuam no mercado, nem para os empresários, para ter medo - disse ele à rádio Europe 1. - Foram dadas garantias, a determinação política é total.

Strauss-Kahn destacou ainda que os Estados devem intervir separadamente quando necessário, de acordo com suas necessidades específicas, mas é importante que qualquer intervenção seja "maciça".

- Os princípios devem ser os mesmos em toda a parte (...), e a execução tem de ser por país, de acordo com as questões específicas de direito local, a história do país e a estrutura do setor bancário.

Economia de mercado, mas regulamentada

O diretor-gerente do FMI destacou que sempre foi partidário da economia de mercado, mas "de uma economia de mercado regulamentada, organizada, onde não se deixa que o mercado domine, e que está a serviço das ambições sociais". A extensão total dos prejuízos causados pela crise, segundo ele, não será conhecida por algum tempo.

O Fundo considera que o sistema financeiro internacional pode ser consertado, segundo seu economista-chefe, Olivier Blanchard, em entrevista ao jornal alemão "Handelsblatt".

- Agora é a hora para se achar e implementar uma solução sistêmica. Isso nos dá confiança. Acreditamos que tudo pode ser reparado novamente. Mas, quanto mais esperarmos, mais custoso será.

Blanchard disse que uma solução à crise exige que os bancos centrais ofereçam liquidez aos mercados e sejam comprados os ativos com problemas. O bancos também precisam de injeção de capital. Ele estima que a crise financeira custará aos mercados emergentes 2% de seu crescimento.

A despeito da mudança de tom, o FMI e o Banco Mundial alertaram ontem que as nações em desenvolvimento devem se preparar para viver um cenário menos favorável nos próximos meses.

- Os mercados financeiros precisam de ação, mas isso não é tudo. Também precisamos empregar todos os instrumentos de política macroeconômica moderna para limitar os danos à economia real - disse Strauss-Kahn.

Já o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, afirmou que "o choque financeiro terá repercussões na economia global" e pode-se esperar "uma realidade sombria na qual países em desenvolvimento devem se preparar para uma queda no comércio, nas remessas e nos investimentos".