Título: Reino Unido injeta US$64 bilhões em bancos
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Fonte: O Globo, 14/10/2008, Economia, p. 21
Governo britânico compra ações de RBS, Lloyds e Halifax e terá direito a nomear executivos para as instituições.
LONDRES. O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, começou a pôr em prática ontem seu plano de resgate do sistema bancário. O governo anunciou uma compra maciça de ações de três instituições financeiras do Reino Unido - Royal Bank of Scotland (RBS), Lloyds TSB e Halifax - que resultará numa injeção total de cerca de 37 bilhões de libras, ou US$64 bilhões, nesses bancos. A previsão do pacote é que a recapitalização de bancos pode alcançar US$88 bilhões. Além disso, estão previstos outros US$438 bilhões em garantias de empréstimos interbancários.
Com o anúncio, o governo britânico passará a ter 60% no RBS, permitindo que o banco levante 20 bilhões de libras (cerca de US$34,8 bilhões). O restante dos recursos anunciados ontem vai para Lloyds e Halifax, que estão em processo de fusão, e nos quais o governo passará a ter 43,5% das ações.
Em contrapartida, Brown obteve dos bancos a promessa de suspensão do pagamento de dividendos para acionistas e de bônus em dinheiro para executivos, concentrando a verba na manutenção de linhas de crédito para consumidores que estejam com problemas para pagar hipotecas. A medida é vista como essencial para o apoio dos contribuintes britânicos às ações do governo.
- Acredito que isso vai ao encontro das preocupações das pessoas - disse Brown.
Ações de bancos serão revendidas no futuro
Pelo pacote, o governo também terá direito a nomear três executivos para o Conselho de Administração do RBS e dois para o futuro banco resultante da união das operações de Lloyds e Halifax. Ontem mesmo o diretor-executivo do RBS, Fred Goodwin, renunciou. Mas as autoridades britânicas se apressaram a dizer que não houve pressão para que ele anunciasse sua demissão.
O governo também ressaltou que seus representantes não vão interferir nas operações cotidianas das empresas, e enfatizou que há diferenças entre uma nacionalização convencional e a tomada de uma fatia majoritária do RBS, pois a posse dos papéis será temporária. A idéia é que sejam vendidos no futuro e, se possível, com lucro para os contribuintes.
- Não vamos tolerar que fracassos sejam recompensados - afirmou Brown. - O governo não será um investidor permanente.
O Barclays - que também teria direito a fazer uso do pacote britânico - afirmou ontem que vai levantar montante superior a 6,5 bilhões de libras, mas que espera fazê-lo sem a ajuda do governo. O HSBC também já afirmou que não pretende aderir ao programa.
Brown tira proveito político do anúncio
Durante o anúncio, Brown sofria para esconder o sorriso de satisfação com a mudança de sua sorte: até meados de setembro, sua popularidade estava em queda livre e ele tinha de enfrentar um rebelião em seu gabinete. No entanto, a crise econômica abriu uma oportunidade para que o premiê usasse o know-how de dez anos de titular da pasta das Finanças de maneira política e técnica: além de estar ganhando pontos junto ao eleitorado, o plano de resgate aos banco coordenado por ele foi imitado pelos vizinhos europeus.
Brown também foi saudado como herói por ter articulado junto ao presidente da França, Nicolas Sarkozy, o acordo que no domingo criou uma ação coletiva de países da União Européia (UE) para o resgate de seu sistema bancário. De acordo com analistas econômicos, o ponto fundamental foi justamente a referência proporcionada pelo pacote britânico, em especial as condições impostas aos bancos socorridos e a preocupação de unificar os países da chamada zona do euro, ainda que o Reino Unido seja o único dos grandes países da UE a resistir à adoção do euro.
- Brown tem razão em dizer que o plano europeu é superior ao americano em uma série de aspectos, especialmente por não ser simplesmente uma tábua de salvação para os bancos e por apresentar algum tipo de compensação eventual para o eleitorado. Ao mesmo tempo, porém, os países europeus demoraram demais para discutir seriamente um corte significativo em suas taxas de juros e só cederam nesse ponto um ano depois do início da crise - disse Lucio Sarno, da Warwick Business School.