Título: É como dar transfusão durante hemorragia
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Fonte: O Globo, 14/10/2008, Economia, p. 21

Para ganhador do Nobel, plano britânico é melhor que americano e EUA ficarão em declínio por muito tempo.

A crise é cada vez mais emaranhada, mas ficaram pelo caminho do investidor comum dúvidas básicas sobre o que, afinal, está acontecendo. Semana passada, O GLOBO pediu que um ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz - agraciado em 2001 -, respondesse a algumas dessas questões. No sábado, antes de o fim de semana fervilhar de novidades, Stiglitz enviou, por e-mail, suas idéias sobre crédito, juros e eleições.

Maria Fernanda Delmas

Esta é uma crise de curto, médio ou longo prazo? Já há recessão?

JOSEPH STIGLITZ: Os EUA não estão tecnicamente em recessão. Mas isso é menos importante que o fato de que a economia vai operar bem abaixo de seu potencial, e o desemprego vai crescer. A economia americana está se encaminhando para uma grande desaceleração, Quando a economia americana entra em declínio, você ouve especialistas discutindo se ele será em V (curta e acentuada) ou em U (mais longa, porém mais branda). Os EUA podem estar entrando em um declínio melhor descrito como em L: está num ponto muito baixo e deve permanecer lá por algum tempo.

Houve sinais de que a crise vinha. Por exemplo: com os juros a 1% nos EUA, após a recessão de 2001, a população financiou a compra de imóveis, e, quando o Fed (o banco central americano) começou a elevar as taxas, veio a crise de não pagamento das hipotecas subprime (de risco maior). Também se gastou na guerra do Iraque. Ninguém viu isso?

STIGLITZ: Uma das razões da crise é que o Fed inundou a economia com liquidez e deixou a regulação frouxa. Parte pela ideologia de que regulação era ruim, mas parte porque a economia estava fraca. E uma das razões para a economia fraca era o preço do petróleo subindo. Antes de entrarmos em guerra com o Iraque, em 2003, o barril custava US$23. Os mercados futuros anteciparam o aumento na demanda, mas pensaram que haveria um aumento no fornecimento. A guerra mudou a equação. Isso é importante porque os americanos estavam gastando centenas de bilhões de dólares para comprar petróleo. Normalmente, isso teria tido um efeito muito negativo em nossa economia. Mas o Fed construiu uma bolha imobiliária para substituir a bolha de tecnologia que construíra nos anos 90. A bolha imobiliária tornou mais fácil as pessoas tirarem dinheiro de suas hipotecas e de seus imóveis; em um ano, as retiradas com a diferença entre o valor do imóvel e o da hipoteca (graças à valorização do preço da casa) passaram de US$900 bilhões. Assim, tivemos uma explosão de consumo tão forte que, mesmo gastando tanto dinheiro fora do país, pudemos manter a economia crescendo. Era muita miopia. Estava claro que estávamos vivendo com recursos que não eram nossos e fora do tempo regulamentar. Outra razão é que não tínhamos um cumprimento efetivo das políticas antitruste. Acabamos com instituições que eram grandes demais para quebrar, e há um perigo real de elas tomarem risco excessivo, porque sabem que podem lucrar quando as coisas vão bem, mas, quando as perdas aparecem, também sabem que vamos socorrê-las. Como resolvemos esse problema com três bancos - JPMorgan Chase, Bank of America e Citigroup - detendo 30% dos depósitos dos americanos, estamos exacerbando o potencial de futuros problemas.

O pacote de US$700 bilhões será suficiente? O governo está socorrendo bancos em vez de ajudar contribuintes? E o pacote britânico?

STIGLITZ: O plano britânico é muito melhor que o americano. Nos EUA, o que é preciso é uma injeção de capital nos bancos, com uma participação acionária concedida ao governo (o governo americano deve anunciar hoje, efetivamente, a compra de fatias de bancos). O plano de Paulson (Henry Paulson, secretário do Tesouro dos EUA) é um socorro não transparente a Wall Street, em que tiramos deles os ativos ruins e os deixamos com os bons. É uma decepção, mas não uma surpresa, que o governo tenha apresentado um projeto de lei, mais uma vez, baseado em uma política econômica de inflar o ganho dos ricos, com a crença de que, jogando bastante dinheiro em Wall Street, este chegará à Main Street (a economia real), beneficiando trabalhadores e mutuários. É como um paciente que recebe uma transfusão de sangue maciça enquanto há hemorragia interna. Não resolve a fonte básica da hemorragia, que é a execução de hipotecas. Tomara que depois das eleições possamos reparar os erros. Os mercados responderam com a mesma falta de entusiasmo que eu senti.

A ação coordenada dos bancos centrais ao cortar juros foi uma decisão certa? Pode causar uma nova bolha?

STIGLITZ: Agora, não resolverá muito de fato, mas também não causará muitos danos. Para a maioria das pessoas, não importa se pode tomar empréstimos a 4% ou 3%.

O crédito está secando nos EUA, na Europa, no Brasil... Onde está esse dinheiro?

STIGLITZ: Essencialmente, com tantas dívidas ruins e tanta incerteza sobre sua magnitude, há uma crise de crédito. Os bancos nem sabem a extensão de seus próprios problemas. Então, como podem ter muita confiança em emprestar para os outros? Não é apenas um problema de falta de liquidez. É mais profundo que isso - balanços foram duramente afetados, e terão de ser consertados. Não importa que plano coloquemos em marcha, haverá uma contração de crédito.

Há alguma racionalidade nas bolsas ou é só especulação? Na hora em que a Câmara americana aprovou o socorro, por exemplo, o índice Dow Jones, que estava subindo, começou a despencar.

STIGLITZ: O real problema com a lei (de socorro), mesmo tendo passado pelo Senado e pela Câmara, é que não tenta resolver os verdadeiros problemas que afligem nossa economia. Paulson vendeu o problema como uma restauração da confiança. A questão não é apenas uma crise de confiança em nosso sistema bancário (e em nossa liderança econômica). Há uma razão para as pessoas terem perdido a confiança. A economia estava se enfraquecendo. Os bancos fizeram muitos empréstimos ruins. Para muitos, enquanto o governo (Bush) falava sobre seu programa para restabelecer a confiança, tratava-se na verdade de um truque com a confiança na economia americana - um presente para Wall Street às custas dos contribuintes comuns. No fim das contas, o truque não funcionou - um dia depois do anúncio (do plano), as bolsas de todo o mundo tiveram o pior pregão de sua história, com os papéis dos bancos tendo as maiores perdas. Paulson e sua equipe trabalharam duramente para conquistar a falta de confiança, à medida que pulavam de uma estratégia para outra. Apesar de o Congresso ter melhorado muito o pacote, também não conseguiu fazer o que era preciso, e quando isso se tornou visível, a confiança ficou ainda mais corroída. Se US$700 bilhões não bastaram, o que funcionaria?

A queda recente dos mercados pode ser, de alguma forma, efeito das eleições presidenciais americanas?

STIGLITZ: Enquanto pode não ser um efeito direto das eleições, terá um grande efeito em quem as pessoas votarão, à medida que muitas das razões para a crise surgiram durante o governo Bush. É difícil acreditar que os americanos vão reconduzir à Casa Branca o partido do presidente.