Título: EUA comprarão US$250 bi em ações de bancos
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Fonte: O Globo, 15/10/2008, Economia, p. 24
Objetivo é estimular oferta de crédito. Governo dará garantia ilimitada a depósitos e empréstimos bancários.
WASHINGTON e CINGAPURA. O governo dos EUA detalhou ontem parte do plano de socorro de US$700 bilhões ao sistema financeiro e anunciou novas medidas com objetivo de descongelar o crédito. O secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, confirmou que serão usados US$250 bilhões na compra de participações de instituições financeiras saudáveis e assegurou que as ações em posse do Estado não terão direito a voto, ou seja, não haverá interferência nas decisões internas das empresas. Além disso, em outra frente, o governo vai garantir empréstimos de bancos e assegurar integralmente depósitos em contas usadas para pagamento de salários de funcionários.
Os US$250 bilhões são a primeira parcela do resgate de US$700 bilhões aprovado pelo Congresso americano há cerca de dez dias. O Tesouro e a Casa Branca ainda avaliam se serão necessários mais US$100 bilhões para este fim. O programa que visa à aquisição de ativos podres de bancos ainda está sendo estruturado e deve ser anunciado nos próximos dias.
Banco que recebe ajuda vai supervisionar programa
Dos US$250 bilhões, metade será direcionada a nove grandes bancos americanos e a segunda metade deverá ser destinada a compra de ações de bancos pequenos. A adesão ao plano é voluntária. Ironicamente, quem vai supervisionar o programa voltado para a compra de créditos podres será um dos ajudados pelas injeções de capital anunciadas ontem: o Bank of New York Mellon, que receberá US$3 bilhões, de acordo com o "Wall Street Journal".
Ainda segundo o jornal americano, as demais instituições que terão seus papéis comprados pelo governo são o Bank of America - incluindo o recém-adquirido Merrill Lynch -, o JP Morgan, o Citigroup, o Wells Fargo, o Goldman Sachs, o Morgan Stanley e o State Street. O Tesouro não citou nominalmente os bancos.
Ao anunciar as medidas, Paulson pediu às instituições que serão ajudadas que canalizem o dinheiro para seus clientes rapidamente. O congelamento do crédito - resultante da desconfiança do sistema financeiro - está levando empresas à falência e à redução do consumo.
- Deixar as empresas e consumidores sem acesso ao financiamento é totalmente inaceitável - disse o secretário.
Os bancos que aderirem ao programa terão de atender certas condições, entre elas a limitação de remuneração de executivos e a suspensão dos chamados "pára-quedas dourados" (prêmios por demissão).
Déficit orçamentário dos EUA atinge US$455 bi
Logo pela manhã, o presidente dos EUA, George W. Bush fez um breve discurso na Casa Branca. Disse que as medidas ajudarão a devolver a confiança aos mercados e "farão com que nossa economia volte ao caminho do crescimento". Ressaltou ainda que o plano não se propõe a "tomar o controle do mercado, senão preservá-lo".
Paralelamente à ação do Tesouro, o FDIC - órgão que regulamenta os depósitos bancários e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) também divulgaram comunicados com suas medidas. O FDIC vai garantir temporariamente 100% dos depósitos em contas em que não incidam juros. A medida visa principalmente assegurar o pagamentos de salários. O órgão também vai dar garantias a empréstimos bancários por três anos. Já o Fed vai ampliar seu programa de compra de dívidas de curto prazo de empresas (commercial papers) até 30 de abril de 2009.
O ex-presidente do Fed Paul Volcker disse, em palestra em Cingapura, que as medidas do pacote são "inconsistentes com o sistema capitalista", mas "independentemente de quão amargas, são necessárias para restaurar a estabilidade do sistema". Alguns especialistas alertam, porém, que as ações vão demorar para surtir efeito.
- Vai levar meses, talvez um ano - disse William Isaac, ex-presidente da FDIC.
Enquanto isso, o déficit orçamentário dos EUA chegou ao recorde de US$455 bilhões no ano fiscal de 2008, segundo divulgou o Tesouro. A estimativa era de US$389 bilhões.