Título: Temor de recessão cria Quarta-feira Negra
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Fonte: O Globo, 16/10/2008, Economia, p. 24
Bolsa de SP desaba 11,39%, e Dow Jones recua 7,87%, ou 733 pontos, a segunda maior queda do índice.
NOVA YORK, RIO, LONDRES e TÓQUIO. O temor de recessão voltou a se abater sobre os mercados ontem, derrubando as bolsas de todo o mundo e criando uma Quarta-feira Negra. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, recuou 733 pontos, a segunda maior queda em pontuação de sua história, só perdendo para o 29 de setembro. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) despencou 11,39%, aos 36.833 pontos. Foi a maior desvalorização diária desde 10 de setembro de 1998, quando, em meio à crise russa, o Banco Central (BC) elevou os juros de 29,75% para 49,75%. O Dow fechou em queda de 7,87%, a maior desde 26 de outubro de 1987, quando caiu 8%. O índice Nasdaq desabou 8,47% e o S&P, 9,03%.
Às 14h25m, o Ibovespa recuou 10% e acionou o circuit breaker, que trava automaticamente as negociações por 30 minutos. Como o dia também era de vencimento do mercado de opções sobre o Ibovespa, a Bolsa estendeu as negociações por mais meia hora, para compensar a parada. Isso porque os preços dos vencimentos são determinados nas três últimas horas do pregão, que funcionou de forma atípica.
Assim que voltou a operar, o circuit breaker quase foi disparado de novo. Ele seria acionado se o índice caísse 15%. Na mínima do dia, às 17h, o Ibovespa recuou 14,80%. Do volume total da Bovespa, de R$9,7 bilhões, R$1,974 bilhão foi relativo ao vencimento de opções sobre o índice.
Vendas no varejo dos EUA têm queda de 1,2%
Os investidores se assustaram com dados macroeconômicos que apontam recessão nos Estados Unidos e na Europa. As vendas do varejo americano caíram 1,2% mês passado, o maior recuo em três anos. E a inflação no atacado recuou pelo segundo mês consecutivo em setembro, 0,4%. Na zona do euro, a inflação registrou queda anualizada de 3,6%. No Reino Unido, os pedidos de seguro-desemprego atingiram 939.900, o maior patamar em quase dois anos.
Também há temores de mais demissões em Nova York em decorrência da crise financeira. O auditor público da cidade, William Thompson, disse à BBC que a perda pode chegar a 165 mil vagas nos próximos dois anos. Destas, 35 mil seriam do setor financeiro. A estimativa é o dobro da de julho, de 80 mil.
- Conclui-se que a economia está em recessão, e a desaceleração parece mais severa que nas duas últimas recessões - disse à Bloomberg News Paul Ashworth, economista sênior da Capital Economics.
A presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de São Francisco, Janet Yellen, também fez um alerta:
- Realmente, a economia americana parece estar em recessão - afirmou ela em palestra terça-feira à noite.
Mesmo sem usar a palavra recessão, o presidente George W. Bush e o secretário do Tesouro, Henry Paulson, disseram que levará algum tempo até que os EUA voltem à forma. Bush disse que "a longo prazo, a economia vai se recuperar". Para Paulson, levará alguns meses para que o pacote do governo faça efeito.
- Vamos levar tempo para superar esta fase - disse ele em entrevista ao canal ABC.
O presidente do Fed, Ben Bernanke, fez eco:
- Os mercados de crédito levarão algum tempo para se reaquecerem - afirmou ele em palestra no Clube Econômico de Nova York. - Mesmo que se estabilizem, a recuperação econômica mais ampla não ocorrerá imediatamente.
Na Europa, foram afetados os papéis de mineradoras e petroleiras: as ações de Anglo American e Xstrata desabaram 20%, enquanto Total e BP caíram 6,9% e 7,3%, respectivamente. O índice FTSE, de Londres, recuou 7,16%. O DAX, de Frankfurt, caiu 6,49%, e o CAC, de Paris, 6,82%.
Papéis ligados a commodities também perderam no Brasil. As ações ordinárias (ON) da Vale caíram 20,16%, e as preferenciais (PN), 15,16%. Os papéis PN da Petrobras recuaram 12,08%, e os ON da CSN, 17,11%.
Na Ásia, os investidores temem que a desaceleração de EUA e Europa afete as empresas da região. O índice Hang Seng, da Bolsa de Hong Kong, caiu 4,96%, após alta acumulada de 14% em dois dias. A Bolsa de Xangai caiu 1,12%, enquanto a de Cingapura recuou 3,24%, a de Seul, 2%, e a de Bombaim, 6%. A exceção foi o índice Nikkei, de Tóquio, que fechou em alta de 1,06% - mas, hoje, já abriu em queda de 10%.
Economista vê recessão longa e risco de depressão
Para o Brasil, economistas esperam turbulência nos mercados até março, ajuste e concentração no setor bancário, alta da inflação e queda de investimentos externos, no preço das commoditiese das exportações. O economista Paulo Vieira da Cunha, que trabalhou no Banco Central (BC) e hoje está na Tandem Global Partners, mostra-se cauteloso. Ele ressaltou que há muitas empresas com problemas de solvência por terem feito apostas ruins sobre a cotação do dólar. Para Cunha, as perdas com derivativos podem chegar a R$60 bilhões. Os derivativos também preocupam Cassio Calil, do JPMorgan:
- Hoje, sabemos que temos R$4 bilhões de exposição no câmbio, mas ainda não temos o tamanho disto. Pode chegar a R$20 bilhões. E vai parar na Justiça.
Cunha acredita que o maior desafio para vencer a crise no Brasil será saber o momento e a dose certos na ação do BC.
- O Banco Central brasileiro terá dois desafios: conter a inflação e manter a liquidez do mercado financeiro. O difícil será avaliar o momento de reduzir juros e manter uma política de redução continuada.
Cunha mostra pessimismo sobre a duração da crise:
- Avalia-se que o período crítico da crise financeira atual vai durar 18 meses. O difícil é saber como as empresas vão sobreviver. Estou pessimista e acho que a recessão será longa e que o risco de depressão é grande. A perda de US$6 trilhões de crédito é impressionante.
Lisa Schineller, da agência de classificação de risco Standard&Poor"s (S&P), acha que o Brasil está em boa posição para enfrentar a crise. Mesmo assim, revisou sua previsão de crescimento para 2009 de 4% para, no máximo, 3%. (Juliana Rangel e Marília Martins, correspondente, com agências internacionais)
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