Título: Mais um diretor de presídio morto
Autor:
Fonte: O Globo, 17/10/2008, Rio, p. 14
A GUERRA DO RIO
Oficial da PM é assassinado numa emboscada a mando de chefes de facção criminosa
Com o objetivo de estender aos presídios o domínio já imposto nas favelas, traficantes da maior facção criminosa do Rio executaram ontem, às 8h30m, com cerca de 60 de tiros de fuzil, o diretor da penitenciária de segurança máxima Gabriel Ferreira Castilho (Bangu 3-B), tenente-coronel da PM José Roberto do Amaral Lourenço, de 41 anos. O oficial implantara uma série de normas no presídio, que concentra o braço armado da facção. Lourenço é o sétimo dirigente de presídio morto desde 2000. A ordem de execução teria partido dos presídios federais de Catanduvas, no Paraná, e de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul, onde traficantes da facção criminosa, incluindo Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, e Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, estão presos.
De acordo com os serviços de inteligência da Polícia Federal e da Secretaria de Segurança, a morte do diretor seria a primeira de uma série de atentados programados pela quadrilha para tentar forçar as autoridade a trazê-los de volta para presídios do Rio. Além dos diretor do presídio, investigações apuram se esses traficantes estariam tramando seqüestrar e executar autoridades como juízes, políticos e promotores. De posse de uma ordem que partiu dos presídios federais, coube ao traficante Adair Marlon Duarte, o Aldair da Mangueira, preso em Bangu 3-B, organizar toda a emboscada, arregimentando homens e armas. Aldair da Mangueira já teria feito ameaças de morte ao diretor que o acusara de ter matado o traficante Neifrance da Silva Nunes, o Nei Sapo, dentro do presídio, em 2006.
Diretor tentou se refugiar em quartel
O tenente-coronel José Roberto do Amaral Lourenço foi executado quando ia para o trabalho. Vários homens em um Peugeot e uma Blazer escura o abordaram na Avenida Brasil, na altura de Deodoro. O diretor de Bangu 3-B, que dirigia um Palio branco oficial, sem blindagem, e estava sem escolta, teve o veículo alvejado na Avenida Brasil e ainda tentou fugir por um desvio para a Estrada de Gericinó na tentativa de se abrigar num quartel do Exército que fica próximo. Mas foi perseguido por um dos carros, cujos ocupantes fizeram os disparos que o mataram. Quatro bandidos que estariam no Peugeot de cor escura ficaram na Avenida Brasil. Segundo testemunhas, os bandidos desceram do carro e, do canteiro que divide as pistas, também fizeram disparos de fuzil contra o Palio do diretor. Desgovernado, o carro se chocou com o canteiro e parou em frente à Escola Municipal Professor Rocco Marchi.
A emboscada à luz do dia aconteceu quando o fluxo de veículos na Avenida Brasil é intenso. O barulho dos tiros deixou apavorados vizinhos e alunos do colégio em frente ao local do crime. Funcionários da escola, que não quiseram se identificar, contaram que tiveram que se abaixar no corredor. Crianças ficaram em pânico com medo dos disparos.
Após a execução, o carro onde estava o diretor morto foi cercado de policiais civis, militares e agentes penitenciários, que cobriram o veículo com plásticos pretos para que o corpo não fosse fotografado. O secretário de Administração Penitenciária, César Rubens Monteiro de Carvalho, esteve no local. Acompanhado de seguranças e com carro blindado, ele não quis dar declarações. Mais tarde, através de nota oficial, o secretário informou que a secretaria vai auxiliar a polícia no que for possível para elucidar o crime. O corpo só foi retirado do local por volta das 11h30m, também coberto para evitar fotos. Ao tomar conhecimento do crime, o governador Sérgio Cabral chamou os assassinos de covardes e pessoas cruéis:
- Isso é mais uma prova que de que estamos enfrentando uma guerra, lidando com criminosos com arsenal bélico impressionante. Todos os traficantes presos serão mantidos em Catanduvas - disse ele.
O ministro da Justiça, Tarso Genro, que esteve ontem no Rio para participar de um evento com Sérgio Cabral, disse que a morte do diretor de Bangu 3-B foi uma ação do crime organizado. Ele pôs o serviço de inteligência da União à disposição do estado do Rio:
- Foi uma ousadia dentro da barbárie. Atacar uma autoridade e matá-la mostra o grau de violência a que chegou o crime organizado no Rio.
Segundo a diretora do IML de Campo Grande, Carla Cristina Souza, no corpo do tenente-coronel havia vários disparos. Devido às inúmeras perfurações de entrada e saída, ela disse que não havia possibilidade de especificar quantos tiros o atingiram. Apenas três fragmentos de balas, provavelmente de fuzil, foram encontrados no corpo. Na unidade há quatro anos, Lourenço ele era considerado um diretor rígido. Ele foi o responsável pela divisão do Presídio Serrano Neves, que concentrava os principais chefes da facção criminosa. O oficial passou a comandar, então, o anexo Gabriel Ferreira Castilho, onde estavam os integrantes mais violentos da quadrilha.
No período em que esteve à frente da unidade, Lourenço teve desavenças com diversos presos. O último conflito aconteceu há duas semanas, quando o diretor determinou que o traficante Ronaldo Pinto Lima e Silva, o Ronaldinho Tabajara, que controla a venda de drogas na Ladeira dos Tabajaras, Dona Marta, Botafogo e Cerro-Corá, no Cosme Velho, fosse transferido para uma solitária em Bangu 1.
O corpo de Lourenço foi liberado do IML de Campo Grande às 17h e levado para a Primeira Igreja Batista de Cascadura, onde foi velado durante a noite e a madrugada. Às 8h30m, haverá um culto na igreja e, em seguida, o corpo seguirá em cortejo para ser sepultado às 11h no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap.