Título: Inglaterra anuncia pacote de até US$1 trilhão
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 09/10/2008, Economia, p. 29

Custo para britânicos é de ao menos US$4 mil "per capita". Plano prevê capitalizar 8 bancos e novos empréstimos

Fernando Duarte

LONDRES. Se na noite de terça-feira o governo do Reino Unido deixara no ar a impressão de que o pacote de ajuda a seu sistema bancário teria cifras bem mais modestas que os US$700 bilhões despejados pelo governo americano, o anúncio oficial feito ontem pelo primeiro-ministro Gordon Brown inverteu as expectativas: nada menos que cerca de US$1 trilhão, montante equivalente a um terço da produção econômica anual britânica, estará potencialmente à disposição dos oito principais bancos do país.

De acordo com os termos principais do pacote, os bancos contemplados (Abbey National, Barclays, Halifax, HSBC, Lloyds TSB, Nationwide, Royal Bank of Scotland e Standard Chartered) terão imediatamente à disposição cerca de US$100 bilhões a título de recapitalização. Outros US$400 bilhões ficarão disponíveis para empréstimos a curto prazo. O governo ainda injetará no mercado US$500 bilhões para garantir empréstimos interbancários.

Pelo menos US$100 bilhões do total planejado virão da arrecadação fiscal, o que, na prática, significa dizer que cada contribuinte britânico vai pagar US$4 mil para os bancos. O premiê, porém, preferiu lembrar que a conta da crise poderia sair mais cara sem uma intervenção.

- Não é a hora para idéias convencionais. Estamos numa crise. O pacote vai ajudar bancos, empresas e famílias em todo o Reino Unido. E o contribuinte estará protegido em tudo isso - disse Brown.

No entanto, o governo britânico impôs condições aos bancos. Duas chamam atenção: a garantia de acesso justo a crédito para pequenas empresas e famílias em busca de hipotecas e um compromisso em conter a cultura dos superpagamentos para executivos. Algo que o próprio governo poderá fiscalizar, pois, em troca de fundos, receberá parte das ações dos bancos, criando um sistema financeiro parcialmente estatizado.

HSBC e mais dois bancos não pretendem usar o pacote

O Tesouro britânico assegurou que os fundos para empréstimos interbancários serão disponibilizados com juros de mercado. Das instituições envolvidas, três (HSBC, Nationwide e Standard Chartered) ontem mesmo já disseram que não pretendem utilizar o pacote de recapitalização.

Já o Banco Central da Inglaterra resolveu dar sua contribuição ao diminuir as taxas de juros de 5% para 4,5%, na primeira redução emergencial desde os ataques de 11 de Setembro. As medidas anunciadas ontem tiveram efeito imediato nas ações dos bancos envolvidos, como Halifax e Royal Bank of Scotland, por exemplo, passando por valorizações de 60% e 22%, respectivamente - na terça-feira, as ações tinham caído mais de 30%.

Como na semana passada o governo e o Partido Trabalhista tinham feito um acordo de cavalheiros com conservadores e liberais-democratas, as principais lideranças políticas adotaram um discurso de consenso ao comentar o pacote. Uma exceção foi o ex-ministro das Finanças, o conservador Lord Lamont, que numa entrevista à TV BBC disse que as medidas podem ser consideradas boas apenas para o setor bancário:

- O fato de que apenas as ações dos bancos estão subindo é um sinal de que esse pacote não parece ser tábua de salvação da economia britânica, que durante muitos anos terá de carregar o fardo desse imenso volume de dinheiro injetado no sistema bancário.