Título: Selic: não há consenso no governo
Autor: Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 09/10/2008, Economia, p. 25

Apesar de Fazenda defender corte de juros, há possibilidade de elevação

Henrique Gomes Batista e Gerson Camarotti

BRASÍLIA. As manifestações recentes do Banco Central (BC) nos bastidores do governo ainda deixam dúvidas a respeito da decisão que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai tomar na última semana de outubro. É forte o coro interno e na sociedade para que seja interrompido o ciclo de alta, mantendo a Taxa Selic inalterada ou, na melhor das hipóteses, reduzindo-a. A posição é defendida pelo Ministério da Fazenda, que, porém, teme que, com a pressão, o BC sinta sua credibilidade ameaçada e eleve outra vez os juros.

O tema não foi discutido na reunião de coordenação política do governo, ontem, antes da qual o presidente do BC, Henrique Meirelles, se encontrou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas Lula tem se ocupado pessoalmente de sinalizar ao BC que a avaliação das demais áreas do governo é que a manutenção do aperto dos juros perdeu o sentido.

Em conversas reservadas, Lula vem afirmando que a economia brasileira está equilibrada e que a preocupação agora tem que ser evitar a desaceleração da produção e do consumo superior à já esperada.

Mas entre os auxiliares diretos de Lula reconhece-se que o risco de manutenção prolongada de um câmbio explosivo pode reanimar a inflação, cujo controle também é prioritário. Mas segundo um ministro, a manutenção prolongada do dólar no patamar de R$2,30 não está no horizonte, deve cair a R$1,90.

Analistas comungam da visão da Fazenda, de que com o crescente número de empresas que informam que estão revendo planos de investimentos e a ação coordenada ontem dos BCs das nações desenvolvidas para reduzir juros, é chegada a hora de o BC brasileiro reduzir a Selic, atualmente em 13,75% ao ano.

Segundo o ministro das Relações Institucionais, José Múcio Monteiro, na exposição que fez na coordenação política, Meirelles não falou em reduzir juros nem em antecipar a reunião.

- Não tem reunião do Copom porque os homens da nossa economia vão para Washington - diz Monteiro, referindo-se a ida de Meirelles e Mantega à reunião do FMI e Banco Mundial, neste fim de semana, nos EUA.