Título: Paes pediu desculpa a Lula por ataques na CPI
Autor: Camarott, Gerson
Fonte: O Globo, 10/10/2008, O País, p. 5

Candidato também mandou carta para dona Marisa retirando suspeitas levantadas contra filho do casal.

BRASÍLIA. O candidato do PMDB à prefeitura do Rio, Eduardo Paes, disse ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que errou ao fazer ataques pessoais a ele em 2005, quando integrava a CPI dos Correios. Na ocasião, Paes era deputado da bancada do PSDB e se referiu ao presidente como "o chefe da quadrilha", numa referência ao esquema do mensalão. Na conversa com Lula - intermediada pelo governador Sérgio Cabral e que ocorreu na Base Aérea de Santa Cruz, na última terça-feira -, Paes também entregou uma carta com pedido de desculpas à primeira-dama, dona Marisa Letícia.

Na carta, Paes também pede desculpas por ter atacado pessoalmente o filho de Lula, o empresário e biólogo Fábio Luiz Lula da Silva. Na época da CPI dos Correios, Eduardo Paes pôs sob suspeita o aporte de R$5 milhões feito pela companhia telefônica Telemar na empresa Gamecorp, do filho do presidente, e defendeu a investigação.

Candidato assume que errou nas críticas e no tom

Paes foi um dos parlamentares de oposição que pressionaram para que o relatório final da CPI dos Correios responsabilizasse o presidente Lula pelo esquema do mensalão e também citasse seu filho Fábio Luiz e a Gamecorp - o que acabou ficando fora do texto.

Quem acompanhou o almoço de terça-feira registrou que Paes teve uma postura mais humilde. Reconheceu que errou não só nas críticas, mas também no tom empregado. Um auxiliar do presidente classificou a conversa como um encontro político.

A mesma fonte ressaltou que Lula não é um presidente que costuma guardar rancor. Lembrou que ele teve um encontro cordial com o ex-senador Antônio Carlos Magalhães (DEM-BA), já falecido, um dos seus maiores adversários - e hoje se relaciona muito bem com o também baiano Geddel Vieira Lima (PMDB), que fez forte oposição ao seu primeiro mandato e atualmente é seu ministro de Integração Nacional.

Mas, no caso de Paes - e outros integrantes da oposição na época do mensalão -, o presidente tem dificuldade de perdoar os ataques ao filho. A mãe, dona Marisa, também não perdoa.

Lula recebeu Paes a pedido de Sérgio Cabral, que considera um grande aliado. A conversa foi civilizada, segundo dois ministros, mas não mudou a decisão de Lula de não fazer campanha no Rio. O presidente não deve nem mesmo gravar uma mensagem que possa ser usada no horário eleitoral, defendendo o candidato do PMDB.

Na CPI, no momento mais agudo da crise, em outubro de 2005, Paes afirmou que o PT estava liquidado: "O PT só sobrevive se o presidente Lula se mantiver vivo". Pouco depois, chamou o presidente de mentiroso ao comentar entrevista concedida por Lula à TV Cultura: "A evidência da conexão entre o Banco do Brasil e o PT, com os repasses feitos pela empresa Visanet, mostra que há dinheiro público no esquema montado com Marcos Valério e caracteriza que o presidente não disse a verdade. De omisso, passou a mentiroso", disse na época.

Sobre a negociação da Telemar com a Gamecorp, Paes afirmou em julho de 2005: "Se o filho do presidente se utilizou da posição de seu pai para ter vantagem, é muito grave". E sentenciou: "Não é uma investigação qualquer, essa é a mais séria que temos até agora (na CPI)".

Uso de avião da FAB também foi alvo de Paes no passado

Paes foi também o parlamentar que insistiu em obter do governo informações oficiais sobre o uso de avião da Força Aérea Brasileira pelos filhos do casal presidencial, que decidiram levar amigos de São Bernardo para passar uns dias de férias no Palácio da Alvorada. Paes fez na época quatro requerimentos de informações, até obter a resposta do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).

Por ocasião da divulgação do relatório parcial da CPI dos Correios, em agosto de 2005, o atual candidato a prefeito do Rio afirmou: "O relatório comprova que, ao contrário do que afirma o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, as provas de corrupção no governo existem para dar e vender".

Procurado ontem à tarde pelo GLOBO, Paes não retornou o pedido de entrevista até o início da noite.