Título: Crédito já fica mais restrito em redes de varejo
Autor: Doca, Geralda; Ribeiro, Fabiana
Fonte: O Globo, 18/10/2008, Economia, p. 33

Em muitas lojas, prazo de financiamento fica limitado a 12 vezes. Empresas já revêem planos de expansão.

BRASÍLIA e RIO. A crise financeira está chegando às grandes redes de varejo e o consumidor pode se preparar para financiar as compras em menos parcelas e pagar juros mais salgados no último trimestre do ano. Os prazos de pagamento já estão caindo fortemente e deverão ficar limitados a 12 meses na maioria das lojas. Essa é a projeção da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), com base nos dados de agosto para setembro, antes do agravamento das turbulências, quando o número máximo de prestações já encolhera em um ano.

O movimento é confirmado pelo presidente do Ponto Frio, Manoel Amorim. Segundo ele, a rede está restringindo a quantidade de produtos com pagamento em dez vezes sem juros e aqueles com prazo de financiamento em 24 meses com correção. A empresa está revendo planos de investimento, que previam até então a abertura de 70 lojas no ano que vem.

- Nós avaliamos que neste momento é preciso ter cautela com a gestão do caixa porque a disponibilidade de recursos está restrita. Da mesma forma que o mercado inteiro aumentou os juros e reduziu os prazos, nós também o estamos fazendo.

Segundo a analista de varejo Luciana Leocádio, da corretora Ativa, Renner e Marisa aumentaram a taxa média de juros de 5,99% para 6,99% e a Riachuelo estaria planejando o mesmo. E, afirmou, há indícios de queda nas vendas e que os programas de carência - quando o cliente compra, mas começa pagar depois - estão vencendo. Procuradas, as empresas não se manifestaram.

- Isso levará a um impacto nas vendas. Já temos informações de desaceleração em algumas redes - afirmou a analista.

Na contramão, há lojas que ampliam parcelamento

Para evitar perdas em vendas, algumas empresas devem optar por uma pequena redução nos lucros em vez de remarcar preço, disse Alan Cardoso, analista da corretora Ágora. Caso das Americanas. Entretanto, como 52% das vendas da rede são à vista e com preço médio de R$30, o prazo médio de cem dias nas compras a prazo deve sofre pouca alteração, avaliou.

Na contramão do varejo, há lojas que ampliam o parcelamento. Assim fez a Casa Show ao aumentar seu pagamento até 24 vezes iguais no cartão da loja (com juros de 2,99%). Além disso, a loja oferece promoções temáticas mensais. Em outubro é a vez do materiais como cimento, argamassa e piso. Em setembro, o crescimento foi de 13% em relação ao mesmo período de 2007. Na Ricardo Eletro, não há previsões de mudanças de parcelamentos na rede. Por enquanto, está sendo possível segurar os preços.

- Não há mudanças na forma de pagamento, nem em juros ao consumidor. Os planos de expansão da rede não mudaram. E repasses, pequenos, devem vir apenas em 2009 - garantiu Ricardo Nunes, presidente da Ricardo Eletro.

O HSBC, dono da Losango, avisa a 21 grandes redes associadas e 21 mil pequenos parceiros que não haverá fechamento de linhas de crédito ou diminuição do prazo. O banco, contudo, aproveita estes mesmos contatos, mais freqüentes, para informar que os juros devem subir. O banco também deverá ser mais rigoroso na avaliação de eventuais clientes.

Para Marcelo Boschi, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), as lojas terão que fechar uma equação para permitir que a prestação caiba no bolso do consumidor e o preço não fique muito distante do valor à vista. Ele lembrou que as grandes redes vinham trabalhando com um cenário positivo, que desmoronou: - O Natal já está feito e as lojas têm que vender. Resta saber se as classes C e D, que puxaram o consumo nos últimos anos, vão continuar comprando. Vai depender das ações do governo de conseguir repassar dinheiro para bancos e financeiras e se vão atingir o consumidor.

As incertezas também travam os investimentos do pequeno varejo, apontou Alexandre Tenenbaum, consultor de marketing da Rozenlândia. Ele contou que o cenário instável estancou os planos de expansão, grandes compras e reforma da marca.

- Não sabemos se vivemos uma catástrofe ou se essa crise é apenas um soluço - disse.

Um dos temores do varejo é a inadimplência. Na Soparfum do Bangu Shopping, a gerente Solange Ramos comenta que não aceita mais cheques - só cartão. Ela conta, contudo, que as pessoas estão comprando mais à vista, pois não querem se endividar. A loja registrou uma queda de 20% nas vendas de perfumes importados.

O professor do Ibmec-Rio Gilberto Braga afirmou que alguns setores serão mais afetados do que outros. A farra do crédito no caso de veículos - com financiamentos de até 72 meses - acabou e a exigência de entrada já é comum em muitas concessionárias.

O ramo de vestuário, explicou, não será afetado no curto prazo porque o ciclo entre a produção das peças e o momento em que a roupa vai para as araras das lojas é longo, dura seis meses. Mas os eletroeletrônicos, que têm ciclo bem mais curto, de 45 dias, virão com preços mais elevados.

Para o gerente da Old Factory do Botafogo Praia Shopping, Márcio Guerreiro, haverá migração de consumo. Ele acredita que o vestuário pode ser o grande beneficiado, já que os eletrônicos podem ter reajustes. As roupas devem ser a vedete do Natal, especulou:

- Os consumidores das classes A e B tenderão a viajar menos ao exterior, devido ao câmbio. Assim, farão as compras no mercado interno.

O celular, disse o professor, vai sentir os efeitos da crise, com o fim dos subsídios e mudanças nos pacote de venda. As TVs mais sofisticadas também vão ficar mais caras, com o fim das promoções. O mesmo deve ocorrer com o iPod.

Produtos financeiros de lojas devem ficar mais caros

Temendo alta nos preços, Bruno Fernandes antecipou a compra de um laptop.

- Como os preços poderiam subir e o crédito ficar escasso, resolvi adiantar meus planos de consumo.

Por outro lado, os preços dos eletrodomésticos não deverão sofrer grandes alterações. Mas já se espera aumento nas taxas para manter prazos de dois anos, a fim de segurar a clientela, como é o caso das Casas Bahia.

O mineiro Jerônimo Peres, de 71 anos, precisa comprar uma geladeira, já que a sua quebrou. Ao perceber que os juros médios do crediário em boleto estão mais altos, ele planeja usar o cartão:

- Se você utiliza o crediário, o valor sobe muito, chega a quase o dobro. E os juros estão mais caros agora que há um mês, quando meu vizinho comprou uma geladeira.

Especialistas afirmam que os produtos financeiros das lojas (seguros, empréstimo etc) ficarão mais caros, pois boa parte delas fazia captações em dólar. E os supermercados deverão remarcar preços de produtos, como pão, massas e biscoitos.