Título: Morales cede e opositores aceitam nova Carta
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Fonte: O Globo, 21/10/2008, O Mundo, p. 33
Presidente abre mão de segunda reeleição para fechar acordo e texto deve ir a referendo em 25 de janeiro.
LA PAZ. Pressionados pela ameaça de bloqueio liderada pelo presidente Evo Morales e ao mesmo tempo satisfeitos com o anúncio de que o presidente abriu mão de uma segunda reeleição, parlamentares opositores bolivianos aceitaram ontem um acordo para a aprovação da nova Constituição do país. A nova Carta - principal projeto do governo e alvo de confrontos com lideranças opositoras há mais de um ano - deve agora ser submetida a referendo no dia 25 de janeiro.
Com o acordo, Morales poderá se candidatar no ano que vem à reeleição presidencial por mais um mandato, o que faz com que possa ficar no poder até 2014. No entanto, não poderá ser candidato a uma segunda reeleição, como previsto no texto original na Constituição, o que lhe deixaria à frente do governo até 2019 caso fosse vitorioso. Se a nova Carta for aprovada no referendo de janeiro, eleições gerais devem ocorrer na Bolívia em dezembro.
- O presidente da República renunciou a um direito seu previsto na nova Constituição, em nome de um acordo político para a aprovação do texto constitucional. Essa é uma prova de que seu pensamento está no povo e no país, e não em interesses pessoais - disse o ministro boliviano da Agricultura, Carlos Romero.
Os trabalhos no Parlamento estavam paralisados por causa do impasse sobre a Constituição. O governo tem maioria na Câmara dos Deputados mas é minoria no Senado e precisava da aprovação de ambos para convocar o referendo. A votação no Senado, segundo fontes do governo, pode acontecer a qualquer momento.
Apesar de ter cedido, Morales pressionou os parlamentares com uma das maiores marchas já realizadas pelo seu partido, o Movimento ao Socialismo (MAS), e que terminou no início da tarde de ontem em frente ao Parlamento. Em clima de tensão, lideranças da marcha ameaçavam bloquear as saídas do prédio até que os parlamentares aprovassem a nova Constituição. Minutos antes da chegada dos manifestantes ao palácio, o acordo entre oposição e governo foi anunciado. Segundo as autoridades, cerca de 200 mil pessoas participaram o protesto.
Oposição fez uma série de mudanças no texto
A nova Constituição, se aprovada em referendo, possibilitará reformas profundas no país, especialmente na política agrária. Populações indígenas ganharão mais autonomia e latifúndios poderão ser usados pelo governo para a reforma agrária. Mas o principal partido político de direita, o Podemos - último a aceitar o acordo e que tem o maior número de cadeiras no Senado - fez uma série de exigências de alterações no texto. Segundo analistas, as principais mudanças têm como objetivo proteger empresários do setor agrícola da região da Meia Lua, a mais rica do país, da reforma agrária pretendida por Morales.
- Não temos confiança no governo e espero que ele respeite o que foi acordado, pois estamos fazendo a nossa parte - disse a deputada do Podemos Ninoska Lazarte.
oglobo.com.br/ mundo