Título: Governo avalia que Brasil e outros emergentes são alvo de especulação
Autor: Camarotti, Gerson; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 24/10/2008, Economia, p. 28

Lula deu sinal verde à ação do BC. Objetivo seria punir os especuladores.

BRASÍLIA. O governo avalia que o Brasil está sob forte ataque especulativo, assim como outros países emergentes. Assustado com a queda-de-braço entre Banco Central (BC) e instituições financeiras de grande, médio e pequeno portes - que estariam comprando dólares para lucrar com o enfraquecimento do real -, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizou o BC a usar artilharia pesada e vender contratos de swaps cambiais no valor de até US$50 bilhões no mercado.

Segundo fontes, a resposta dada ontem pela autoridade monetária foi uma forma de conter a especulação cambial. Decidiu-se apelar para uma ação agressiva, "de força", para mostrar que o país não está disposto a bancar o prejuízo da caça a qualquer lucro. A idéia é fazer com que os especuladores paguem caro por seus atos. Ou seja: "comprem" moeda a R$2,50 e sejam obrigadas a "vender" a R$2,20, quando os contratos vencerem.

Auxiliares próximos do presidente associaram o ataque especulativo no câmbio com o que ocorreu em 1999, quando houve um forte ataque ao real, com o derretimento das reservas brasileiras. Só que hoje, afirmam essas fontes, há uma diferença que o BC tentou mostrar ontem: o Brasil agora tem munição para enfrentar os especuladores:

- Os bancos estão comprando dólares num momento em que o governo quer irrigar o mercado. Os especuladores precisam saber que quem tem US$200 bilhões em reservas cambiais não está brincando.

Novas medidas não estão descartadas

Pressionado, Lula deu, esta semana, sinal verde para que o presidente do BC, Henrique Meirelles, fizesse o que fosse necessário para "ganhar a queda-de-braço contra a especulação", conforme disse um ministro. Daí a demonstração de força da autoridade monetária, que teve como resultado o recuo do dólar, que fechou a R$2,30, após ter ultrapassado R$2,50.

Nos bastidores, novas medidas não estão descartadas. Estuda-se a vinculação da liberação do compulsório bancário ao financiamento das exportações. O BC, porém, teme problemas de ordem jurídica.

A escassez de recursos para o comércio exterior brasileiro chegou a tal ponto que o ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, reclamou da situação em São Paulo em que havia na platéia representantes de vários bancos. Quer que o dinheiro para as exportações seja "carimbado".

A recomendação no núcleo do governo, no entanto, é de cautela. Segundo fontes, há forte dependência do chamado "efeito psicológico" das últimas medidas anunciadas. Há grande expectativa de como o mercado vai reagir às ações do governo nos próximos dias, principalmente em relação ao anúncio do "super-swap" e da edição da Medida Provisória 443, que permite que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal possam comprar bancos e empresas em dificuldade.

- É muito importante que o Banco Central passe a dar prioridade à estabilização do câmbio. Há uma volatilidade muito grande que deve durar de um a dois meses. Isso é resultado de uma situação de pânico e de aversão ao risco - disse o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), um dos conselheiros econômicos do presidente Lula.

O BC tem margem de manobra no câmbio e tem bala para jogar com o objetivo de estabilizar o mercado, afirmou Mercadante. Segundo ele, essa ação de coordenação da autoridade monetária vai ajudar o mercado a encontrar o equilíbrio, em um cenário de ação especulativa principalmente em relação às empresas exportadoras.