Título: BB poderá comprar bancos de montadoras
Autor: Doca, Geralda; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 24/10/2008, Economia, p. 29

Aquisição de carteiras de financiamento de veículos também é analisada. Objetivo será incentivar setor.

BRASÍLIA. O setor automotivo será o próximo segmento a ser ajudado por ações do governo. O Banco do Brasil adiantou ontem que, conforme diretriz do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, está fortalecendo sua atuação no financiamento de veículos e analisando a aquisição de carteiras deste segmento de outros bancos. Além disso, o BB poderá comprar bancos de montadoras - prerrogativa concedida pela Medida Provisória 443, anunciada anteontem. Para estas ações, o maior banco do país tem um caixa de R$3 bilhões.

A informação de que o BB vai mirar o financiamento de veículos, para não deixar desacelerar fortemente o ritmo do setor automotivo, veio à tona por intermédio do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, que se reuniu com Lula pela manhã. Segundo Aécio, o presidente, reconhecendo a "absoluta seriedade da crise", afirmou que esta indústria seria o próximo foco do governo, que utilizaria o BB para este fim. Em Minas fica a a sede da Fiat. De acordo com Aécio, não fosse a atuação dos bancos das montadoras, a queda das vendas do setor poderia superar 20%:

- O presidente me disse que o Banco do Brasil entrará no segmento adquirindo uma financeira para que possa completar os financiamentos que as montadoras já estão dando.

Carteira total do BB em veículos chegou a R$5 bi

Diante das dúvidas a respeito de como seria feita a ajuda do governo, o próprio presidente Lula falou sobre o tema à tarde. Ele disse que a proposta não significava que o BB iria investir nas montadoras, conforme Aécio havia deixado subentendido:

- O Banco do Brasil não tem expertise para fazer financiamento de automóvel e teria de ter parceria com banco de investimento que tivesse expertise em financiamento de automóveis para poder fazer os investimentos em automóveis. E por que tomamos essa decisão? Porque a indústria automobilística tem uma cadeia produtiva extraordinária e não queremos que a indústria automobilística deixe de ser um dos carros-chefes da economia brasileira.

Apesar da orientação do Executivo, o BB - banco que tem ações negociadas em mercado - acredita que aquisições neste ramo são uma oportunidade para crescer. A avaliação é que o BB entrou tarde nesse tipo de financiamento, fazendo apenas operações normais, como CDC de veículos e leasing. A atividade começou em meados deste ano, quando a instituição fez parceria com o banco sul-africano First Rand Bank. A carteira total do BB em veículos chegou a R$5 bilhões em agosto.

Empréstimos do setor estão mais caros e seletivos

Quando o BC reduziu o compulsório para incentivar bancos a comprarem carteiras de instituições com problemas de caixa, o BB estava queria adquirir apenas crédito consignado. Mas houve mudanças de rumo.

Segundo um executivo de uma montadora, o setor ainda não entendeu como será a ajuda. Não está claro, por exemplo, se a medida vai garantir liquidez para que os financiamentos possam ser mantidos. As declarações desencontradas do governador de Minas e do presidente Lula seriam prova desse cenário confuso. Esse empresário comentou que, atualmente, há maior seletividade na concessão de empréstimos que, também estão mais caros, com taxas de juros elevadas. Além da exigência maior na avaliação de risco, existe também uma retração natural por parte do consumidor que, inseguro, prefere aguardar mais um pouco antes de fazer o negócio.

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