Título: Estados Unidos na marcha a ré
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Fonte: O Globo, 31/10/2008, Economia, p. 25

Queda no consumo faz PIB americano encolher 0,3%. Analistas vêem recessão

WASHINGTON

A menos de uma semana das eleições presidenciais, relatório mostra que a economia dos Estados Unidos teve sua maior retração em sete anos. O Departamento do Comércio informou ontem que o Produto Interno Bruto (PIB, soma de bens e serviços produzidos no país) americano recuou 0,3% no terceiro trimestre, em termos anualizados. A queda foi puxada pela retração nos gastos de consumo - que respondem por 70% do PIB -, que caíram 3,1% no período. Foi o primeiro recuo desde o último trimestre de 1991 e o maior desde o segundo trimestre de 1980.

O resultado foi melhor que a queda de 0,5% esperada por analistas, mas ficou muito abaixo do crescimento de 2,8% do segundo trimestre, quando saíram as restituições de imposto de um pacote de estímulo do governo. Economistas prevêem mais retração nos próximos trimestres. Os dados do PIB - que serão revisados em novembro - só vão até 30 de setembro, e a crise dos mercados financeiros se agravou a partir do dia 15 daquele mês.

- A crise realmente chegou no fim de setembro - disse à Bloomberg Ethan Harris, co-diretor de Pesquisa da Barclays Capital. - Estamos olhando para um PIB bastante cruel no quarto trimestre, com uma queda de 2% a 4%.

Os gastos do governo federal subiram 13,8%, compensando, em parte, a retração dos consumidores. Os gastos militares subiram 18,1% no terceiro trimestre.

Perdas contínuas de postos de trabalho devido ao declínio do valor das ações, além de outros investimentos e dos preços de moradias, colocaram os consumidores sob forte estresse. A renda pessoal disponível caiu 8,7% no terceiro trimestre - a maior desde que os dados começaram a ser registrados, em 1947 - depois de ter subido 11,9% no segundo trimestre, também como reflexo das restituições de impostos.

Os gastos com bens duráveis, como carros e móveis, caíram 14,1%, o pior resultado desde o início de 1987. Lojas de veículos informaram que as vendas praticamente pararam, em parte devido à contração do crédito, que está dificultando a tomada de empréstimos. Já aqueles com bens não-duráveis, como roupas e alimentos, recuaram 6,4%, a maior queda desde 1950.

- É um prelúdio para notícias muito piores na economia nos próximos dois trimestres - disse Allen Sinai, economista-chefe da consultoria Decision Economics.

As empresas também mostraram cautela em relação ao futuro: cortaram seus investimentos em 1%, depois de expansão de 2,5% no segundo trimestre. Os estoques de produtos não vendidos somavam US$38,5 bilhões em 30 de setembro.

Taxa de juros pode cair de 1% para zero nos EUA

Oficialmente, não se fala em recessão. Esta é determinada pelo National Bureau of Economic Research (NBER), com base em PIB, emprego, vendas, renda e produção industrial. A análise pode levar de seis a 18 meses. Segundo o NBER, a última recessão foi de março a novembro de 2001.

Para alguns analistas, a queda do PIB favorecerá o candidato do Partido Democrata, Barack Obama, nas eleições de 4 de novembro.

- A economia está ajudando bastante os democratas, especialmente depois do último choque financeiro - disse à Bloomberg News Daniel Clifton, diretor de Pesquisa da Strategas Research Partners. - As pessoas simplesmente se assustaram.

Em meio à retração econômica, analistas acreditam que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) pode levar sua taxa básica de juros a zero. Na quarta-feira, o Fed reduziu os juros em 0,5 ponto percentual, para 1%. Sinai acredita que haverá mais um corte, para 0,5%, na reunião do Fed em dezembro, se o cenário econômico continuar precário. O ex-diretor do Fed Lyle Gramley também acredita em mais uma redução de 0,5 ponto se o mercado de crédito não se normalizar até dezembro.

A presidente do Fed de São Francisco, Janet Yellen, também vê possibilidade de que os juros fiquem próximos a zero.

- Faríamos isso porque estamos preocupados sobre a debilidade da economia - afirmou após participar de simpósio na Universidade da Califórnia - Berkeley. - Acredito que, potencialmente, poderíamos ir um pouco abaixo de 1%.

Hoje, o presidente do Fed, Ben Bernanke, falará no mesmo evento, em videoconferência.

O desemprego, atualmente, está em 6,1% e pode atingir 8% até o fim de 2009, segundo, segundo Jan Hatzius, economista-chefe da Goldman Sachs em Nova York. (Com New York Times, Bloomberg News e agências internacionais)