Título: Brasil corre risco de estagflação em 2009
Autor: Duarte, Patrícia
Fonte: O Globo, 26/10/2008, Economia, p. 42
Economistas e acadêmicos ressaltam que o problema pode ser evitado
Bruno Rosa
O Brasil corre o risco de chegar ao fim do primeiro semestre de 2009 com alta nos preços e baixo crescimento por um período prolongado em sua atividade econômica, processo que se assemelha à estagflação para alguns acadêmicos como o professor Rubens Penha Cysne, doutor pela Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pós-doutorado pela Universidade de Chicago. Economistas endossam as conseqüências do possível cenário, mas ainda estão divididos quanto a possibilidade de estagnação.
Porém, esse risco pode ser evitado. Segundo especialistas, o governo deve fazer medidas efetivas, como a redução de impostos indiretos e a realização de reformas institucionais, permitindo a redução dos custos de produção doméstica.
Segundo Cysne, o mercado de trabalho ainda pode sofrer os reflexos da restrição de crédito interno e da alta do dólar:
- O desemprego maior deve ser percebido no fim de 2009, pois o empresário terá sua estrutura de capital alterada.
Segundo a ESPM-Rio e a LCA Consultores, a taxa de desocupação média pode ficar entre 8,5% e 9% em 2009, contra 7,6% em setembro deste ano. Para Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do Banco Central (BC) e economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), a desaceleração da economia já está contratada:
- O desempenho da economia em 2009 vai depender do ritmo do dólar. O que não pode é o BC fazer medidas para conter a alta da moeda, pois se corre o risco de dolarizar a dívida, aumentando a inflação. Com isso, terá de se elevar os juros. Aí, a economia cresce menos e pode sim entrar em estagflação.
O dólar, no entanto, não voltará aos níveis pré-crise, em torno de R$1,60, dizem os especialistas. A expectativa é que a moeda oscile entre R$2 e R$2,20. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, diz que, por causa da alta na divisa, corre-se o risco de ultrapassar o teto do regime de metas de inflação (6,5%) em níveis não muito agradáveis em 2009:
- Se entendermos atividade abaixo do potencial e inflação acima da meta, poderíamos dizer que teríamos uma estagflação moderada, temporária. Essa combinação ficará bem mais clara no primeiro trimestre do ano que vem. Essa crise é o grande teste do governo para mostrar se é austero e responsável.
Ilan Goldfajn, ex-diretor do BC e professor da PUC-Rio, não acredita em estagflação. Para ele, haverá apenas uma desaceleração com a falta de crédito.
- Os preços vão subir por causa do câmbio, mas, ao longo de 2009, a própria desaceleração terá impacto na demanda, reduzindo a inflação.
Já o professor de Economia da Uerj Luiz Fernando de Paula diz que o risco de estagflação existe, mas tudo vai depender da reação do governo, com medidas efetivas e não pontuais.
- É por isso que a flexibilização da política fiscal é essencial, mas o governo não sinaliza isso no momento. Investimentos em infra-estrutura também são necessários, pois beneficia outros setores. Se a economia crescer entre 3% e 3,5% ano quem vem será, na margem, zero - diz.