Título: Lula: Ninguém falou mal do governo federal
Autor: Galhardo, Ricardo
Fonte: O Globo, 27/10/2008, O País, p. 21

Presidente minimiza derrotas do PT em São Paulo e Porto Alegre e afirma que obras influenciarão sucessão em 2010.

SÃO PAULO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem, pouco depois de votar na escola João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo, que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ajudou a eleger candidatos de partidos de oposição, inclusive o PSDB e o DEM, nas eleições municipais. A principal evidência disso, segundo Lula, é que o governo federal não foi criticado na atual campanha, algo, segundo ele, sem precedente no país.

- Estamos ajudando a eleger todos os prefeitos, na medida que não tivemos nenhuma atitude de perseguição a quem quer que seja nas verbas do PAC. É importante lembrar quanto é que o governador (José) Serra recebeu. É importante lembrar quanto o prefeito do Rio de Janeiro recebeu. É importante lembrar quanto foi dado para a prefeitura de São Paulo - disse o presidente.

O fato de que até candidatos de oposição disputaram o uso de sua imagem também evidenciaria seu poder eleitoral. Em seu estilo superlativo, Lula insistiu que foi a primeira vez que isso acontece no país.

- Veja uma coisa, essa foi uma campanha atípica. É a primeira campanha na história do Brasil em que todos os candidatos a prefeito, do PT ou do DEM, trabalharam favoravelmente ao governo. Ninguém falou mal do governo federal. Ninguém falou mal do presidente Lula. O candidato do PSDB, do DEM, de qualquer partido político trabalhou com as obras que o governo federal está realizando - disse ele.

Transferência de votos não é automática, diz o presidente

Lula discordou dos analistas políticos que afirmam, com base nos fracos resultados do PT em capitais, como São Paulo e Porto Alegre, que, apesar de sua alta popularidade, o presidente não consegue transferir votos. Para ele, cada eleição tem uma lógica diferente.

- As eleições municipais não têm incidência automática nas eleições de 2010, nem a de 2010 tem na de 2012. É preciso que a gente separe cada eleição - disse Lula.

Para o presidente, um bom desempenho do governo federal pode ajudar os candidatos aliados nas cidades, mas a transferência de votos não é automática. Segundo ele, isso dependeria do engajamento do presidente nas campanhas.

- Você pode transferir voto, depende do seu envolvimento na campanha. Eu poderia pegar, por exemplo, 1989, quando todos os votos do (Leonel) Brizola vieram para mim. Mas, por que vieram? Porque era uma coisa trabalhada antes da campanha. Quando o Brizola decidiu me apoiar, 75% dos eleitores dele já me apoiavam. Mas, é preciso saber qual o envolvimento das pessoas. Não é aparecendo uma vez na televisão ou fazendo um comício. Você precisa se engajar na campanha para fazer essa transferência. É plenamente possível. Acho que, quando o governo está bom, transfere voto - disse o presidente.

Lula, no entanto, disse não ter se engajado diretamente nas campanhas de seus ex-ministros Marta Suplicy, em São Paulo, e Luiz Marinho, em São Bernardo do Campo (no ABC).

- Me desculpe, mas não posso avaliar a campanha nem do Marinho nem da Marta, porque só vim aqui duas vezes - disse ele.

Obras podem ajudar a fazer seu sucessor, acredita Lula

Apesar da derrota de Marta em São Paulo, Lula prevê que o surgimento dos primeiros resultados do PAC devem vitaminar a candidatura governista à sua sucessão em 2010. O presidente admitiu que o governo tentará capitalizar eleitoralmente a avalanche de inaugurações e obras previstas para seu último ano de governo.

- Em 2010, vamos ter muitas obras sendo inauguradas neste país. Obviamente, o governo federal vai usufruir desse bom momento em que as obras estarão sendo inauguradas - admitiu.

Lula informou também que vai convocar os prefeitos eleitos para orientá-los sobre o PAC. Além disso, o presidente quer fazer um pacto com as prefeituras para a erradicação definitiva do analfabetismo no país.

Lula rebateu as críticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que disse, em entrevista à revista "Época", que "o estilo de Lula é enganar" a população em relação à crise financeira internacional:

- Lamento que ele esteja torcendo para que a crise cause, aqui, o estrago que está causando nos Estados Unidos. Lamento profundamente que algumas pessoas estejam torcendo para o Brasil não dar certo.