Título: Itaú leva o Unibanco
Autor: D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 04/11/2008, Economia, p. 21
Novo banco será o maior do país, com R$575 bi em ativos, e a 4ª maior empresa da AL.
Ronaldo D"Ercole
Dois dos maiores bancos privados do país, Itaú e Unibanco anunciaram ontem a fusão de suas operações, numa transação que resultará no maior banco do Brasil e da América Latina, com ativos totais de R$575,1 bilhões. Ou, nas palavras do presidente do Unibanco, Pedro Moreira Salles, a 17ª maior empresa financeira do mundo. Pelo acordo, a família Moreira Salles, que controla o Unibanco, será sócia em partes iguais dos controladores do Itaú numa holding, que controlará 51% das ações com direito a voto da nova instituição, a Itaú Unibanco Holding. O valor de mercado do novo banco, pelos números de 31 de outubro de 2008, seria de US$41,3 bilhões, o que o põe na quarta posição no ranking de empresas latino-americanas, atrás de Petrobras, Vale e América Móvil (México).
- Nós estamos fazendo história hoje no Brasil - disse o presidente do Itaú, Roberto Setubal, ao iniciar a apresentação do negócio aos jornalistas, no MAM de São Paulo.
Diferentemente da interpretação de alguns analistas de mercado, Moreira Salles e Setubal negaram tratar-se de uma aquisição, afirmando ser uma parceria, uma sociedade.
- Não se trata de uma compra, trata-se de uma fusão. Se não, eu estaria aqui sozinho. Nós, dos dois lados, criamos uma holding e estamos abrindo mão de coisas para formar algo maior - disse Setubal.
A criação do novo gigante bancário começou a ser negociada em agosto de 2007 entre Moreira Salles e Setubal, ganhando força com a concretização, dois meses depois, da compra do Real ABN Amro pelo espanhol Santander. Moreira Salles lembrou que a existência de um banco com escala global criava uma situação nova para o mercado local.
- Os (bancos) estrangeiros sempre tiveram no Brasil uma dimensão menor que os maiores bancos brasileiros - disse Moreira Salles. - A questão do Santander nos mostrou que devíamos dar um salto de escala.
A crise financeira global foi outro elemento que ajudou no desfecho das negociações, mas não foi determinante, segundo os dois executivos.
- A crise talvez tenha criado uma oportunidade, uma vontade de acelerar e fazer o projeto acontecer - argumentou Setubal.
Embora a meta seja constituir uma instituição para atuar nos mercados globais, a prioridade no momento será a integração dos dois bancos. A idéia, segundo os executivos, é preservar o maior número de agências (total em torno de 4.200) e de funcionários (cerca de 107 mil).
- Estamos olhando para o crescimento. É óbvio que existem superposições (de agências e postos de trabalho), mas a empresa que está sendo criada terá, daqui a dois ou três anos, mais funcionários do que tem hoje - disse Moreira Salles.
Eles disseram não saber quanto o novo banco ganhará em sinergias com a união de Itaú e Unibanco.
- Acreditamos que haverá ganhos, mas não calculamos - disse Moreira Salles. - Numa operação de troca de ações, essas contas não se fazem.
Num primeiro momento, haverá poucas mudanças para clientes e correntistas. Os detalhes do processo de integração começam a ser tratados agora e não há prazo para sua conclusão. Segundo Moreira Salles, até a última quinta-feira, somente ele e Setubal vinham trabalhando no projeto. Só então seu desenho foi apresentado aos técnicos e advogados das duas partes.
O projeto de ampliar a internacionalização do novo banco só deve ser colocado em marcha daqui a alguns anos. No início, serão visados mercados latinos, como México e Colômbia. Internamente, o novo banco pode fazer frente às investidas do Santander. Pelo fato de sua participação não ser diluída, não poderá ser alvo de ofertas hostis. Externamente, poderá fazer aquisições em América Latina, África, EUA e Europa. Também se reforça o peso do setor privado na área financeira, num momento em que o governo tenta fortalecer Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
Itaú teve maior alta da Bolsa: 16,32%
A fusão foi o grande propulsor do mercado ontem. A Bolsa de Valores de São Paulo avançou 2,66%, aos 38.249 pontos, enquanto o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, ficou estável. A operação foi muito bem recebida e vista como prenúncio de que novas aquisições virão, por parte dos concorrentes. As ações do Itaú fecharam em alta de 16,32%, a maior valorização do dia, seguida pelos papéis da Itaúsa (holding do grupo), com 13,04%. Já as do Unibanco subiram 8,95%.
Já o dólar teve alta de apenas 0,37%, a R$2,168, acompanhando a valorização internacional da moeda americana. O Banco Central vendeu dólares no mercado à vista, em torno de US$500 milhões, e cerca de US$800 milhões em swaps cambiais (contratos em que paga a variação do dólar e recebe uma taxa de juros).
COLABOROU Felipe Frisch
MOREIRA SALLES COMANDARÁ CONSELHO E SETUBAL SERÁ PRESIDENTE-EXECUTIVO, na página 22