Título: Fusão prejudica consumidor, dizem analistas
Autor: Rosa, Bruno; Casemiro, Luciana
Fonte: O Globo, 04/11/2008, Economia, p. 28
Para Procon-SP e Idec, correntistas podem sofrer com alta de tarifas e juros, além de piora no atendimento.
A fusão entre Itaú e Unibanco vai prejudicar os correntistas. A avaliação é de analistas e órgãos de defesa do consumidor. De acordo com especialistas, os clientes vão sentir nas taxas de juros de algumas modalidades de crédito e no valor dos serviços a menor concorrência do sistema financeiro brasileiro, tido como um dos menos competitivos do mundo.
Para Luis Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, há mais concentração à vista. Ele cita a medida provisória que autoriza Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal a comprarem outras instituições. Além disso, apontam outros especialistas, o Bradesco, até então o maior banco privado do país, pode adquirir outras empresas.
Repasse de queda de custos a consumidor ainda é dúvida
- A concentração do sistema financeiro não é boa. O ideal seria poder escolher. Uma fusão como essa pode fazer com que as taxas de juros do cartão de crédito sejam elevadas, assim como o custo da cesta de tarifas. Por isso, a pessoa física tende a ser prejudicada.
Alcides Leite, professor da Trevisan, ressalta que a fusão entre Itaú e Unibanco, somada a outras operações, como a compra do Real pelo Santander, pode representar encarecimento nas taxas de juros cobradas.
Já Roberto Montezano, professor do Ibmec-RJ, diz que o negócio vai melhorar a diversificação de riscos de crédito e reduzir custos operacionais, que podem ou não ser parcialmente repassados para o consumidor. A posição da Fundação Procon-SP vai na direção contrária. Segundo o diretor Evandro Zuliani, a tendência é haver uma despreocupação com o consumidor em setores com menor concorrência:
- Em processos de fusão, o consumidor pode ficar desassistido, pois ele não terá para onde ir. Uma eventual redução dos canais de atendimento ou alteração no acesso a serviços caracterizaria descumprimento de oferta ou alteração contratual, o que não pode haver.
Para Karina Grou, gerente jurídica do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a concentração, a princípio, não traz vantagens a clientes:
- Esse já é um mercado de difícil escolha para o consumidor. E estamos falando de dois grandes bancos, que somam 15 milhões de clientes. Quando falamos em agência, falamos de postos de trabalho e atendimento. Não é justo que, com a fusão, o consumidor pague mais tarifa, tenha um pior atendimento e, no fim, os bancos registrem lucros exorbitantes.
Ela destaca que, no último dia 30, o Unibanco reajustou todas as tarifas, em 6% em média:
- Ficamos ressabiados com essa postura, não se pode dizer que o reajuste não tem nada a ver com a fusão. O que esperamos é que, nessa junção, leve-se em consideração as tarifas mais vantajosas ao consumidor - diz a advogada, acrescentando que nos próximos seis meses, segundo as regras do Banco Central, o Unibanco não poderá alterar o valor de suas tarifas.
O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel José Ribeiro de Oliveira, diz que o Unibanco pratica tarifas maiores que as do Itaú e maior que a média do mercado, visto que foca sua atuação em clientes de alto poder aquisitivo.
Concentração do sistema financeiro é acelerada
Já Marcelo Henriques de Brito, da consultoria Probatus, afirma que a capacidade do Itaú de gerenciar seus custos e "precificar" os clientes é melhor e, com isso, pratica menores tarifas.
A transação deve acelerar o processo de concentração no sistema financeiro brasileiro, iniciado em 1995 com o Proer, o programa de salvamento dos bancos. No fim de 1995, segundo a consultoria Austin Asis, os três maiores bancos brasileiros detinham 36,6% dos ativos do setor. Hoje, já levando em conta o negócio Itaú/Unibanco, essas mesmas instituições passaram a deter 53,3% do mercado. Se levado em conta os cinco maiores bancos, a concentração sobe de 42,5%, em 1995, para 72%.
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