Título: Aos 200 anos, BB perde liderança do setor
Autor: Duarte, Patrícia; Doca, Geralda
Fonte: O Globo, 04/11/2008, Economia, p. 29
Principal arma para recuperar terreno é MP que permite compra de outros bancos sem aprovação do Congresso.
BRASÍLIA. No ano em que completa 200 anos, o Banco do Brasil perde sua histórica liderança no sistema financeiro nacional e refaz rapidamente sua estratégia de atuação. De imediato, a arma de ataque é a mobilização para aprovar, sem modificações, a medida provisória (MP) 443, editada pelo governo em reação à crise global e que permite ao BB comprar em dinheiro o BRB (estatal do Distrito Federal) e, especialmente, a Nossa Caixa, banco estadual de São Paulo. As operações passam a ser fundamentais para que o BB não se distancie muito do topo.
Com a bênção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo reviu a estratégia de negociar com a oposição no Congresso uma limitação à MP - que passaria a ter prazo para vigorar e se limitaria à aquisição de instituições privadas, como indicou estudar o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Equipe econômica e Palácio do Planalto vão trabalhar em sintonia com o presidente do BB, Antonio Lima Neto, que já havia se oposto à imposição de amarras à MP.
- Na visão da Fazenda, o cenário mudou. Você não pode deixar esse processo (concentração) ficar só com os bancos privados - disse uma fonte da equipe econômica, para quem o governo não crê que a oposição vá arcar com o ônus de deixar o BB, um símbolo, para trás.
- A MP dá igualdade de condições para o Banco do Brasil e a Caixa nesta concorrência - corroborou um auxiliar de Lula.
Na liderança, BB estimula juros menores e crédito
Para a equipe econômica, não é interessante ter uma instituição privada como líder do mercado financeiro. O BB era um instrumento de política pública, ao estimular juros menores e mais crédito. Em entrevista coletiva ontem, Mantega tentou minimizar a perda da liderança:
- Momentaneamente ele (BB) perde a liderança. Nada como um dia depois do outro, ele terá também a chance de correr atrás e se refazer.
Mesmo que o BB compre a Nossa Caixa (ativos somam R$54,003 bilhões), o BRB (R$4,803 bilhões) e o Banco do Estado do Piauí (R$330,4 milhões), o BB passaria dos atuais R$423,445 bilhões - posição do encerramento do semestre, incluído o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) - para R$482,580 bilhões, quase cem bilhões de reais menos do que o grupo Itaú/Unibanco (R$575 bilhões).
O BB, que desde o ano passado temia ser ultrapassado na liderança, mas a ameaça era o Bradesco, avalia a compra de outros bancos privados, como o Votorantim. O BB não comentou a operação. Uma semana atrás, negava a possibilidade, o que foi entendido por observadores como sinal de que há movimentação de bastidores. O Bradesco teria interesse na instituição.
Nossa Caixa é a aquisição mais importante para BB
Dentre as aquisições, explica uma fonte ligada ao BB e com acesso a Lula, a mais importante para o BB é a Nossa Caixa. Apesar de ter sido líder até o fim de outubro, o Banco do Brasil é quarto colocado em São Paulo. Perde para Bradesco, Itaú e Santander. Se não entrar com força máxima no estado, recuperar a liderança fica dificultada.
Ontem, o novo banco negou interesse na Nossa Caixa. O Bradesco, nos bastidores, se diz interessado, mas prejudicado pela decisão do governo paulista José Serra de negociar diretamente com o BB - sem licitação. São Paulo precisa só que a operação seja aprovada pela Assembléia Legislativa.
José Roberto Arruda (DEM), governador do DF, é favorável à negociação direta com o BB. Para o BB, é importante manter a MP com texto original: seria mais rápido concluir os negócios, sem espaço para concorrentes. Ao permitir o pagamento em dinheiro, elimina-se a dificuldade de fixar o preço dos papéis numa troca de ações (única forma de o BB comprar banco público até a MP).
Para Serra e Arruda, seria melhor vender seus bancos via aquisição, pois seria dinheiro vivo no caixa. Tanto parte da oposição quanto da base mantêm a intenção de impor limite de prazo e de escopo da MP:
- A fusão (Itaú/Unibanco) não muda em nada nossa visão - disse o líder do DEM no Senado, senador José Agripino.
Na base do governo, divergências. O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) está alinhado com a oposição e diz que a "MP 443 não é estatizante". Já o líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS), quer o texto original.
COLABORARAM Gustavo Paul e Henrique Gomes Batista