Título: Primeiro, o diagnóstico
Autor: Penna, Caetano
Fonte: O Globo, 13/11/2008, Opinião, p. 7
Em meio à crise econômica mundial, acontece em Washington, depois de amanhã, o encontro dos chefes de Estado do G-20. É esperado que os principais líderes mundiais apresentem propostas para evitar uma depressão econômica. Mas, para que as medidas sejam eficazes, é preciso que se tenha claro o diagnóstico do problema. Como explicar então a maior crise econômica desde 1929?
Com pertinência, um economista que vem sendo lembrado nos últimos tempos é Joseph Schumpeter. As idéias desse austríaco dão pistas importantes sobre os ciclos capitalistas. Assim, convém ouvir o que têm a nos dizer seus seguidores. E uma destacada economista que trilha esse caminho é a venezuelana Carlota Perez, que desenvolveu o modelo dos chamados "Grandes Surtos de Desenvolvimento".
No modelo de Perez, a economia mundial está agora no "Ponto de Inflexão" da quinta revolução tecnológica (da informação e comunicação). Esse período começou com o colapso da bolha da nova economia em 2000. Durante as décadas iniciais de uma revolução tecnológica, ativos da nova economia apresentam retornos significativamente maiores que os demais: há um investimento massivo na sua produção, mas, na esfera financeira, há um frenesi que culmina numa grande bolha de tecnologia. Ainda que a riqueza imaginária em parte desapareça com o estouro da bolha, a rede real de infra-estrutura permanece, atingindo cobertura suficiente para se tornar uma conseqüência positiva do frenesi.
Mais do que uma infra-estrutura física, a fase de frenesi deixa como legado três tensões estruturais, conseqüências negativas do descontrole financeiro. A primeira se dá entre riqueza monetária e real, que não é totalmente resolvida com o estouro, requerendo um realinhamento institucional e regulatório na esfera financeira.
A segunda e a terceira são resultado da polarização da renda correlata: uma tensão é econômica - há grande capacidade de oferta, mas, porque a riqueza está concentrada, não há suficiente demanda efetiva; a outra é de cunho sociopolítico, decorrente da tensão anterior, e que pode se manifestar como agitação política ou pressões migratórias. Na era atual, essas tensões se manifestam não só em termos nacionais: com a intensa globalização, as contradições têm caráter mundial. Para resolver essas tensões estruturais, são necessárias medidas que recoloquem a ênfase da economia na produção e que permitam a partilha dos frutos do aumento de produtividade.
Ou seja, o realinhamento institucional e regulatório para assegurar o total aproveitamento da revolução tecnológica presente é ainda a tarefa a ser feita. Quando os representantes políticos das principais economias mundiais discutirem suas propostas em Washington, esperamos que as idéias dos acadêmicos que possuem um diagnóstico bem acurado para a crise atual estejam também presentes. Afinal, foi o grande acadêmico John Keynes quem salvou o capitalismo da última agonia de que se tem notícia...
CAETANO PENNA é economista.