Título: Pé no freio, pressão sobre Bush
Autor: Martins, Marília
Fonte: O Globo, 08/11/2008, O Mundo, p. 37
Obama evita ditar política econômica, mas cobra ações imediatas de Casa Branca e Congresso.
Em sua primeira entrevista coletiva, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, afirmou que a economia americana está "no buraco". Depois de uma reunião com sua equipe de assessores econômicos, ele delineou suas prioridades na recuperação da crise. O democrata exortou o governo do presidente George W. Bush e o Congresso a tomarem medidas imediatas para conter a crise econômica. Mas pisou no freio em relação a pressões para anunciar nomes de sua equipe e propostas de políticas públicas a serem realizadas agora, deixando claro que não montará uma espécie de ministério paralelo.
- Os Estados Unidos têm apenas um governo e um presidente por vez, e, até 20 de janeiro do ano que vem, este governo é a atual administração - disse Obama, que deu a entrevista num palanque em que se lia "Escritório do Presidente Eleito".
A primeira entrevista do futuro presidente dos EUA foi realizada no dia em que foram anunciados os piores índices de desemprego do país em 14 anos e meio. Ele classificou as informações de que há dez milhões de desempregados no país - e que 1,2 milhão de pessoas foram para rua este ano - de "notícias sombrias".
Obama, que realizou a entrevista logo após ter encerrado uma reunião com seus conselheiros econômicos, delineou quais serão as suas prioridades assim que assumir o poder: colocar em prática um "plano de resgate para a classe média", contendo programas de geração e empregos e de seguro desemprego; conter a crise financeira "que se espalha para outros setores da economia"; analisar "a implementação do programa financeiro deste governo"; e iniciar a redação de um conjunto de políticas que "fará crescer a classe média e reforçará a economia no longo prazo".
- Não será rápido, não será fácil para que consigamos deixar o buraco em que estamos - alertou o futuro presidente.
Tom mais formal do que o usado na campanha
No único momento em que mencionou ações a serem tomadas imediatamente, disse esperar que os congressistas aprovem medidas complementares ao pacote de US$700 bilhões ainda durante o mandato do presidente George W. Bush.
- Se ele não fizer isso neste últimos meses, será a primeira coisa que farei como presidente dos EUA.
Em suas primeiras declarações públicas depois de ser eleito, Obama foi recebido por um grupo de jornalistas mais formais do que costumava encontrar durante a campanha eleitoral, mesmo que muitos deles fossem as mesmas pessoas.
Ele escolheu os jornalistas que fariam as perguntas, seguindo o costume dos políticos americanos, chamando todos pelo primeiro nome. Selecionou dois repórteres locais de Chicago, que mereceram seus únicos comentários.
- Onde está John McCormick? Vamos dar para um cara local, aqui da cidade, um pouco de tempo - disse ele, chamando um repórter do jornal "Chicago tribune".
Ao chamar outra jornalista de Chicago, se espantou com o fato de ela estar com o braço enfaixado.
- Lynn Sweet. O que aconteceu com seu braço, Lynn?
- Quebrei meu ombro correndo para o seu discurso na noite da eleição - disse a jornalista do "Chicago Sun-Times".
Diante dos risos na sala, Obama brincou:
- Acho que este foi o único grande acidente durante toda a comemoração.
Perguntado sobre o momento em que anunciará os nomes de seu ministério, Obama disse que até agora escolheu apenas os nomes do vice-presidente, Joe Biden, e do futuro chefe de gabinete, Rahm Emanuel, e que não fará escolhas apressadas.
- Quando tivermos um anúncio de indicação para o gabinete, faremos. É muito importante em todas as posições-chave, tanto na equipe econômica quanto na de segurança nacional, acertar. E não fazer as coisas de modo apressado e acabar cometendo erros.
Outro jornalista quis saber se a relação entre ele e o presidente Bush antes de ele tomar posse poderia ser "de confronto". Obama lembrou que fora convidado por Bush para visitá-lo na Casa Branca - na que deverá ser a mais rápida visita de um presidente eleito à sede do Poder Executivo após a eleição - e agradeceu. Mas foi assertivo:
- Não anteciparei problemas. Irei até lá com um espírito não partidário e com a sensação de que tanto o presidente quando os vários líderes do Congresso reconhecem a severidade da situação que enfrentamos, e de que eles querem que as coisas sejam feitas agora.