Título: Fusão entre Itaú e Unibanco abre corrida por novas compras no setor
Autor: Oliveira, Germano
Fonte: O Globo, 09/11/2008, Economia, p. 30

GIGANTE BANCÁRIO: Votorantim, Safra e Citibank seriam os mais cobiçados.

Para tentar recuperar liderança perdida, BB e Bradesco disputam "noivas"

SÃO PAULO. A fusão entre Itaú e Unibanco, que deu origem à maior instituição bancária do país, com R$575 bilhões em ativos, provocou uma corrida do Banco do Brasil e do Bradesco em busca de novas compras para a retomada da liderança do setor. Segundo analistas, o BB e o Bradesco procuram várias "noivas" para se casar. Entre elas, estão Votorantim (7º lugar no ranking), Safra (8º lugar), Nossa Caixa (9º lugar) e Citibank (10º lugar). O problema é que as "noivas" do mercado estão se valorizando e encarecendo suas posições.

- Não vamos sair às compras como alguém que vai a supermercado. O Bradesco não é um banco administrado por adolescentes com impulso de compras. Mesmo perdendo o primeiro lugar para o Itaú entre os privados, ainda lideramos o mercado de seguros, previdência e número de pontos de atendimento. Assim, quando formos às compras não vamos sair afoitamente. Isso vai ter que ser bem estudado e negociado. Hoje, as noivas estão muito caras - disse uma fonte do Bradesco, lembrando que o banco já acumula no ano um lucro líquido de R$6,015 bilhões.

Analistas de mercado dão como certa a aquisição da Nossa Caixa, do governo de São Paulo, pelo BB. A instituição tem ativos de R$54 bilhões. O Bradesco até tentou interferir na negociação do governo de São Paulo com o BB, mas o governador José Serra (PSDB) já fechou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a estatal paulista será mesmo do BB.

Serra já teria fechado a venda para o BB ao preço de R$6,4 bilhões. O Palácio dos Bandeirantes nega esse valor, mas nos bastidores do governo é dada como certa a venda para o BB, em negócio que pode ser anunciado ainda esta semana. A questão agora é saber se Serra receberá esse valor em dinheiro vivo ou se aceitará parte em ações do BB. Serra quer dinheiro vivo para criar um fundo de desenvolvimento do estado, o que poderia ajudar numa possível candidatura sua a presidente da República, em 2010.

Ao completar 200 anos, BB perde liderança do setor

Os mesmos analistas já contabilizam também para o BB a incorporação do BRB (Banco de Brasília), com R$4,8 bilhões em ativos. Mesmo assim, o BB ficaria com R$482,2 bilhões em ativos, ainda atrás da nova Itaú Unibanco Holding.

Como o BB não quer perder a liderança no ano em que comemora 200 anos, o banco estatal está francamente aberto às compras. Analistas dizem que o BB pode comprar parte do Banco Votorantim (com R$73,4 bilhões em ativos). O BB tem interesse em financiar veículos, e a instituição controlada pela família Ermírio de Moraes é forte justamente nesse segmento. Comenta-se que o banco estatal estaria negociando a compra de 49% do concorrente. A direção do Votorantim nega o negócio.

- O Banco Votorantim não está à venda - garantiu na semana passada José Ermírio de Moraes Neto, presidente da instituição.

O banco nega ainda que tenha sido afetado pelo prejuízo cambial de R$2,2 bilhões anunciado pelo braço empresarial do grupo, mas isso não impediu os comentários no mercado financeiro de que seu controle poderia ser repassado a outra instituição. Além do BB, o Bradesco também estaria interessado nos negócios do banco dos Ermírio de Moraes. Ambas as instituições já foram sócias na VBC Energia e em privatizações de estradas, embora tenham rompido sociedade por divergências comerciais.

Mesmo que o BB adquirisse o Votorantim, a estatal ainda precisaria comprar outro banco. Nesse caso, fala-se que o BB poderia fazer oferta pelos negócios do Citibank no Brasil, com ativos de R$39,4 bilhões. O Citibank, dirigido no Brasil por Gustavo Marin, foi um dos que mais sofreram com a crise nos Estados Unidos. Mas analistas dizem que o banco não está disposto a abrir mão de suas operações no Brasil. Afinal, o país, ao lado da China, deve manter seu crescimento econômico nos próximos anos, uma garantia de lucros. No passado, a direção do Citibank chegou a dizer que queria comprar o controle do Unibanco.

HSBC e Citibank querem manter operações no país

Dos bancos que estão no Brasil, Citibank, HSBC e Santander são global players e não estariam dispostos a abrir mão de suas operações no Brasil. Nesse caso, BB e Bradesco ainda teriam que cobiçar outra noiva, como o Banco Safra, de Joseph Safra.

- O Safra vale no mercado algo em torno de R$12 bilhões. O seu Joseph não quer vender, mas, se oferecerem R$30 bilhões, ele pode até conversar - disse fonte do Safra, com ativos de R$61,7 bilhões.

Joseph tem 70 anos e pode se aposentar logo, mas os filhos Jacob (que opera um private banking na Suíça), Alberto e Davi estão firmes na direção do banco, com sede em São Paulo. Davi, o mais novo, administra o banco de investimentos. Dos quatro filhos de Joseph, só Ester, dona de uma escola para a colônia judaica, está fora do setor.

- Os Safra têm DNA de banqueiros no sangue. Não seria fácil tirar o banco deles - diz um analista.

COLABORARAM Lino Rodrigues e Patricia Duarte

oglobo.com.br/economia