Título: Montadoras na mira do Estado
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 12/11/2008, Economia, p. 19
Crise pode levar governo americano a assumir GM, Ford e Chrysler, como fez com bancos.
O governo dos Estados Unidos começa a se convencer de que não há outra alternativa para salvar a indústria automobilística do país - centrada na General Motors (GM), na Ford e na Chrysler - do que estatizar as três empresas ou, pelo menos, alguma delas, como já vem fazendo no setor financeiro. Segundo analistas do setor e membros da equipe do presidente eleito, Barack Obama, a questão já não é mais de "se" isso será necessário, mas de "quando" tomar essa iniciativa. A estimativa é que, quanto mais o presidente George W. Bush resistir, pior será para a economia.
Isso porque a GM está à beira da falência. Ela já anunciou que tem dinheiro suficiente para se manter apenas até o fim do ano, mas que, se as vendas continuarem caindo - em outubro a queda foi de 45,1% -, talvez nem chegue lá. A empresa fechou seu balanço do terceiro trimestre com US$16,2 bilhões em caixa, mas precisa de US$11 bilhões a US$14 bilhões por mês só para bancar os seus custos básicos: salários, pagamentos a fornecedores e pensão de seus aposentados. Ontem, seus papéis chegaram a cair 18%, para seu menor nível em 65 anos, encerrando o pregão em queda de 13%, a US$2,92. Desde 1946 a ação não fechava abaixo de US$3.
- Já fizemos os cortes possíveis. Cortamos até o osso. Sem ajuda do governo não vamos conseguir operar nos primeiros seis meses de 2009 - disse o presidente da GM, Frederick A. Henderson.
As medidas incluem um corte de US$10 bilhões em agosto, venda de US$5 bilhões em ativos, um corte de US$5 bilhões na semana passada, redução de US$2,5 bilhões em investimentos para 2009, produção menor em dez fábricas e adiamento de lançamentos. Segundo o "Wall Street Journal", a GM negocia aumentar sua participação em uma joint venture na China que faz carros populares.
Obama defende ajuda a montadoras
Se a GM chegar à bancarrota provocará uma quebra em série, pois isso afetará seus fornecedores de autopeças, que também abastecem Ford e Chrysler, apressando o colapso destas. Calcula-se que a falência das três causaria o desemprego de três milhões de americanos e uma perda de US$156,4 bilhões em impostos nos próximos três anos. O quadro poderia se agravar com as falências dos fornecedores de autopeças, aço, plástico e vidro para as montadoras, pois isso acabaria afetando também as três grandes montadoras japonesas instaladas nos EUA: Toyota, Honda e Nissan.
- Diante da inércia do governo, não vejo outra saída. Para mim, é apenas questão de tempo a primeira das três montadoras americanas declarar falência - disse Kevin Tynan, da Argus Research.
Em sua conversa com Bush, segunda-feira, Obama afirmou ser urgente a injeção de dinheiro público no setor. Bush respondeu que também anda preocupado com o assunto, mas impôs uma condição. Ele disse que sua prioridade é aprovar o acordo bilateral de livre comércio com a Colômbia, estancado há meses no Congresso. E que só concordaria em financiar as três montadoras americanas se Câmara e Senado aprovassem esse tratado.
Obama sempre foi contra esse acordo bilateral. E, a julgar pelo que dizem seus assessores, ele estaria disposto a pagar para ver. Ou seja: os democratas não cederiam à pressão (alguns a chamam de chantagem) de Bush, apostando em que ele não deixaria que a GM, que já foi a maior montadora do mundo e é um ícone do capitalismo americano, quebrasse no final de seu governo, já tão criticado.
O governo aprovou US$25 bilhões de ajuda às montadoras em setembro, mas vinculando esse dinheiro ao desenvolvimento de veículos que consumam menos combustível e poluam menos. A questão é que as fábricas necessitam de capital urgente para pagar as suas contas.
Obama sugeriu um novo pacote de US$25 bilhões, sem condições, ou o acesso das três montadoras a parte dos US$700 bilhões destinados originalmente ao resgate de instituições financeiras - o que tem o apoio da presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi. Ela pediu ontem uma "ajuda financeira de emergência e limitada" para o setor. Se Bush não concordar com uma coisa ou outra, restará à GM, em especial, encontrar formas de se manter de pé até 20 de janeiro, quando Obama assume e, então, terá como salvá-la da falência.