Título: Arapongas vigiaram cada passo de Dantas
Autor: Oliveira, Germano; Freire, Flávio
Fonte: O Globo, 10/11/2008, O País, p. 3
Visita de parlamentar ao prédio do Opportunity, no Rio, foi registrada por equipes da Abin.
SÃO PAULO. Pelo menos dois meses antes de a Operação Satiagraha ser deflagrada, em julho, 12 agentes da Abin, divididos em três equipes, revezaram-se no Rio de Janeiro na observação do endereço residencial do banqueiro Daniel Dantas, enquanto outros dois ficavam atentos à movimentação em frente ao prédio do banco Opportunity, de Dantas. É o que revela o relatório elaborado pelo delegado da PF Amaro Vieira Ferreira, que apura vazamento de informações na operação.
Dantas era acompanhado no trajeto de casa para o trabalho ou outros lugares. Para o monitoramento de suspeitos, os arapongas usavam radiotransmissores, computadores portáteis, filmadora e gravadores, fornecidos pela PF, além de celulares da própria Abin. No Rio, o quartel-general foi montado na Rua Equador, próximo à Rodoviária Novo Rio, onde a Abin tem um escritório. Era dali que as equipes de arapongas seguiam para as missões, algumas vezes após reuniões com o próprio delegado Protógenes Queiroz. Numa das salas, um quadro contendo um organograma indicativo dos suspeitos e suas respectivas ligações era coberto por um saco plástico preto.
O relatório de Amaro Ferreira, obtido pelo GLOBO, revela que os arapongas seguiram, fotografaram e filmaram imagens de um deputado, desde a sua chegada ao Aeroporto Santos Dumont até a entrada dele no prédio do Opportunity. Em depoimento, o araponga José Maurício Michelone, de Goiânia, diz que as informações sobre os passos do parlamentar no Rio foram encaminhadas aos delegados da PF responsáveis pela Satiagraha. Ele chegou a se encontrar, segundo os arapongas, com um amigo de Dantas chamado Guga. Mas nome do parlamentar não consta do relatório.
"Foi possível realizar filmagem de um encontro entre Guga e um deputado, cujo o nome o depoente (Michelone) não se recorda, o qual chegou ao Santos Dumont, procedente de Brasília, se deslocou até o prédio do Opportunitty, tendo permanecido por período de uma hora ou uma hora e pouco, pegou um táxi, retornou ao aeroporto e seguiu para São Paulo", diz o relatório.
Não há detalhes sobre dia e horário em que o deputado foi vigiado. Em São Paulo, policiais e arapongas usavam também as suítes 501 e 502 do Hotel São Paulo Inn, no centro da cidade, para o trabalho de investigação.
Ainda no relatório, a PF diz que a área de inteligência da corporação foi violada, com o acesso de arapongas ao departamento sem permissão oficial da alta cúpula. Lotado em Brasília, o agente Jerônimo Jorge da Silva Araújo, em depoimento oficial, disse que ele e outro funcionário da Abin receberam senhas de acesso ao sistema de interceptação telefônica chamado Guardião, e que passaram a degravar conversas interceptadas na Satiagraha. Entre os alvos, o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o empresário Naji Nahas.
A PF ouviu o diretor do Departamento de Contra Inteligência da Abin, Paulo Maurício Fortunato Pinto. Ele disse que não houve qualquer mudança na rotina da agência por conta do trabalho feito numa parceria clandestina com a PF. Pinto diz que não entregou relatórios sobre as atividades às "instâncias superiores".