Título: Chanceler brasileiro tem encontro com equipe de transição de Obama
Autor: Martins, Marilia
Fonte: O Globo, 17/11/2008, Economia, p. 17

Celso Amorim diz que saiu otimista de reunião com Madeleine Allbright

Marilia Martins

WASHINGTON. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, saiu otimista de sua primeira reunião com membros do time de transição do presidente eleito dos EUA, Barack Obama, no sábado à noite, em Washington. Ele se encontrou com Jim Leach e a ex-secretária de Estado Madeleine Allbright, que participou da reunião do G-20 como enviada especial. Amorim saiu da cúpula convencido de que a crise global aumentou as pressões para que a Rodada de Doha seja concluída até o fim deste ano.

Após o encontro com Madeleine, Amorim disse que os dois conversaram apenas sobre os termos gerais de um esforço internacional conjunto para vencer a crise. Detalhes sobre o acordo de Doha, disse, foram evitados:

- Tivemos uma conversa amena e fizemos uma avaliação da situação mundial. Não entramos em detalhes sobre Doha, mas acho que a visão do Partido Democrata é bastante próxima à nossa, e Madeleine manifestou sua satisfação com o fortalecimento das negociações multilaterais em fóruns mais amplos, como o G-20.

Para que Doha seja concluída, será necessário que os EUA abram mão dos altos subsídios agrícolas e que os países emergentes, por sua vez, reduzam as tarifas impostas aos produtos manufaturados. O problema é que Obama sempre foi reticente à extinção dos subsídios. Ainda na campanha, quando pressionado para detalhar seu plano de revitalização econômica e de investimentos no setor energético, Obama evitou defender o fim dos subsídios, tema que seu adversário John McCain admitia.

Os dois observadores nomeados por Obama no G-20 emitiram nota oficial sobre as conversas reservadas que mantiveram durante a cúpula: "O presidente eleito acredita que a cúpula de líderes das maiores economias do mundo é uma oportunidade importante para buscar uma resposta coordenada para a crise financeira global".

Além de Amorim, Madeleine e Leach se encontraram ainda com representantes de Argentina, Austrália, Canadá, China, União Européia, Índia, Japão, México, Rússia, Coréia do Sul, Turquia, Reino Unido e com o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon. O ministro, por sua vez, também se reuniu com Susan Schwab, representante de Comércio dos EUA.

Presidente eleito e Bush negociam transição

Mesmo com Obama distante de Washington, vivendo em sua casa em Chicago, as negociações de bastidores entre os dois presidentes continuam em alta. Tanto assim que, quando Obama fez um apelo para que o governo George W. Bush ajudasse financeiramente a indústria automobilística, a resposta foi que, em troca, a bancada democrata no Congresso poderia votar a favor do tratado de livre comércio com a Colômbia. Obama também fez restrições a esse acordo durante a campanha.

Agora, o memorando de 47 medidas assinado pelo G-20 cria grupos de trabalho para estudar formas de regulamentação internacional e dá prazo até dezembro para que Doha seja, afinal, concluída. Bush é contra agências internacionais de regulação do mercado financeiro, e Obama não quer começar o governo revendo subsídios que ele se recusou a condenar durante a campanha. A moeda de troca desta difícil negociação é a administração da crise no dia-a-dia, com custos políticos para ambos os lados.

- A pressão para o fechamento da Rodada de Doha aumentou substancialmente. O G-20 representa 90% do PIB e 80% do comércio mundial. A conclusão de Doha agora ficou mais importante não apenas pelo que ela pode resultar como também pelas conseqüências no caso de um eventual fracasso nas negociações. A crise fez com que, a partir de agora, o ônus de medidas protecionistas seja muito maior - disse Amorim.