Título: Falências assombram EUA
Autor: Rangel, Juliana
Fonte: O Globo, 11/11/2008, Economia, p. 19
Gigante de eletroeletrônicos anuncia quebra e ações da GM têm menor cotação em 62 anos
Juliana Rangel*
Aeconomia real dos Estados Unidos está, cada vez mais, mostrando os sinais de contágio da crise financeira global. Ontem, a cadeia de eletroeletrônicos Circuit City pediu falência, enquanto as ações da General Motors (GM) atingiram seu menor nível desde 1946 por temores de quebra da empresa, conforme alertas de Barclays e Deutsche Bank. Os papéis da GM chegaram a cair 30,7% durante o pregão, sendo negociados a US$3,02, a menor cotação em 62 anos. A montadora encerrou em queda de 22,94%, a US$3,36. O Barclays previu um valor de US$1 para a ação da GM dentro de um ano, e o Deutsche Bank, de zero. "Mesmo que consiga evitar a falência, acreditamos que este seja o futuro da empresa", afirmou o banco alemão. Já o Barclays ressaltou que, apesar de um socorro do governo federal poder evitar a quebra da GM, ele diluiria o valor de seus papéis. No ano, a queda acumulada é de 86%.
A Circuit City, a segunda maior rede de eletroeletrônicos dos EUA, pediu falência pelo chamado Capítulo 11, o equivalente à concordata no Brasil. O anúncio, às vésperas das festas de fim de ano, surpreendeu o mercado. A empresa disse que a decisão se deveu à desaceleração da economia e à retração do consumo. Há uma semana, ela anunciara o fechamento de 155 lojas e o corte de 17% de sua força de trabalho. Suas ações despencaram 62% e foram suspensas.
Bovespa sobe 0,3% e dólar vai a R$2,192
Pesaram ainda as demissões na DHL, unidade americana da Deutsche Post, e na fabricante canadense de equipamentos de telefonia Nortel. A DHL vai cortar 9.500 vagas e reduzir suas operações nos EUA. A Nortel decidiu demitir 1.300 depois de registrar prejuízo de US$3,4 bilhões no terceiro trimestre, contra lucro de US$27 milhões no mesmo período de 2007.
Além disso, a gigante do setor de seguros American International Group (AIG) divulgou prejuízo de US$24,7 bilhões no terceiro trimestre, frente a lucro de US$3,09 bilhões no mesmo período de 2007. E o governo americano anunciou que vai comprar US$40 bilhões em ações da empresa. Com isso, a ajuda federal à seguradora desde setembro chega a US$150 bilhões.
As más notícias pesaram nos mercados americanos. O índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, caiu 0,82%, e o Nasdaq, 1,86%. Isso se refletiu no Brasil, que chegara a subir 5,62% pela manhã graças ao pacote de estímulo na China, que puxou os papéis de empresas ligadas a commodities na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). A Bolsa brasileira fechou com alta de apenas 0,30%, aos 36.766 pontos. Já o dólar, que recuara 2,4% pela manhã, encerrou em alta de 1,48%, a R$2,192.
Segundo o analista Felipe Casotti, da Máxima Asset, o pacote chinês tem influência direta sobre a Bovespa porque os papéis com maior peso em seu principal índice, o Ibovespa, são ligados a commodities, como Vale e Petrobras - um crescimento maior da economia da China aumenta a demanda por matérias-primas. As ações preferenciais (PN) da mineradora chegaram a subir ontem 9,09% e encerraram com ganhos de 3,91%. Já as da petroleira se valorizaram 7,44% no dia, mas reduziram sua alta para 2,97%.
O Institute of International Finance (IIF), que representa os 390 maiores bancos do mundo, prometeu cooperar com os esforços para neutralizar a crise. Mas seu diretor-gerente, Charles Dallara, deixou claro que os bancos precisam de mais dinheiro dos governos, pois o que já receberam não é suficiente para fazer com que reabram o crédito. O HSBC informou ontem que suas perdas com hipotecas no terceiro trimestre atingiram US$4,3 bilhões.
A gigante hipotecária americana Fannie Mae registrou um prejuízo recorde no terceiro trimestre, de US$29 bilhões, e ainda informou que poderá precisar recorrer a dinheiro do governo no ano que vem. No mesmo período de 2007, a perda foi de US$1,4 bilhão. Foi o primeiro balanço divulgado depois da intervenção do governo americano, em setembro.
COLABOROU: José Meirelles Passos, correspondente, com Bloomberg News e agências internacionais
oglobo.com.br/economia