Título: Delegado contou aos chefes que PF e Abin espionaram gabinete do STF
Autor: Casado, José
Fonte: O Globo, 15/11/2008, O País, p. 4
Em gravação, Protógenes confirma ação e suspeita de vazamento a favor de Dantas
José Casado
Iniciativas conjuntas da Polícia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em ações de espionagem - ou de "inteligência", como ele prefere chamar - têm sido rotina na vida do delegado federal Protógenes Queiroz nos últimos dez anos. Ele contou isso aos seus chefes em reunião quatro meses atrás, na tarde de uma quinta-feira (14) de agosto, em São Paulo.
Nesse encontro, do qual sobreviveu um registro de três horas de gravação até agora inédito, fez-se uma revisão dos erros cometidos no inquérito que levou à prisão o banqueiro Daniel Dantas. A Polícia Federal evitou repassar cópia integral da gravação até para o Ministério Público. Sob pressão da Presidência da República, na época, divulgou apenas um trecho, correspondente a 5% do total, onde o delegado pede para sair do inquérito por razões pessoais.
Na reunião, o delegado Protógenes Queiroz informou aos seus chefes sobre um "trabalho de inteligência", aparentemente em andamento naquele dia, no qual um dos alvos era o Supremo Tribunal Federal. Ou seja, que houve uma ação de espionagem em relação a um gabinete específico "no STF".
"Tinha outro habeas sendo gestado no gabinete do STF"
Contou, também, que recebera ordens do juiz Fausto De Sanctis para não informar nada, nem mesmo aos seus superiores na polícia, porque "era temerário" e havia risco "de não execução das prisões" - entre elas a do banqueiro Dantas, do ex-prefeito paulistano Celso Pitta e do empresário Naji Nahas.
- O doutor Fausto (De Sanctis, juiz federal responsável pelo caso) me repassou essa decisão, de que era temerário repassar (à cúpula policial) a decisão judicial (sobre prisões temporárias de suspeitos), haja vista que naquele momento nós sabíamos que tinha um outro "HC" (habeas corpus) que estava sendo preparado, sendo gestado, no gabinete do STF e em escritório de advocacia. Isso (veio) do trabalho de inteligência que nós fizemos.
Na conversa com seus chefes, o delegado deixa claro que o então diretor da Agência Brasileira de Inteligência, Paulo Lacerda, ex-dirigente da Polícia Federal e ex- chefe de Protógenes Queiroz, teve participação direta e ativa na condução do inquérito até a etapa final, a fase de prisões de suspeitos. No dia das prisões, por exemplo, Lacerda trabalhou na sede paulista da Polícia Federal. Ele orientou o delegado até em detalhes como não comparecer ao prédio da polícia na véspera das prisões, para evitar suspeitas e eventual vazamento de informações.
Um dos chefes de Protógenes Queiroz não escondia a surpresa. E indagou a respeito de uma informação divulgada pela revista "Veja" sobre a parceria de espionagem entre a Polícia Federal e a Abin:
- Tinha agentes da Abin trabalhando conosco? - quis saber o delegado Roberto Ciciliati Troncon Filho, diretor de Combate ao Crime Organizado. Troncon, atualmente, é o segundo na hierarquia da PF.
- Não! - responde Protógenes Queiroz. - Os agentes da Abin trocaram informações conosco. Isso eu faço há dez anos dentro da Divisão de Inteligência (da PF). A requisição de agentes da Abin, para coletar dados, informações, é normal.
- Teve requisição de agentes da Abin para trabalhar (no inquérito sobre Daniel Dantas)? - insistiu Troncon.
- Não. A requisição não é expressa. A requisição é informal.
- Como assim? Eu não entendi.
- Para confirmação de endereço. Confirmação de endereço de "a" e "b", coisas que a gente não tinha tempo de fazer. Pedíamos a confirmação e eles nos informavam. Apenas isso.
- (Agentes da Abin) trabalharam no caso específico?
- Na análise específica, não - retrucou o delegado Queiroz, acrescentando: - Agora, possivelmente, nós pretendemos instrumentalizar (sic), haja vista que existe o chefe, o secretário do presidente da República (Gilberto Carvalho), e isso já é uma questão de Estado. Isso vai ser instrumentalizado (sic) com a colaboração ou não, para a Abin tomar providências... (e ver) se houve ou não ameaça efetiva ao gabinete do presidente da República.
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