Título: Mais tropas na guerra ao Aedes
Autor: Alencastro, Catarina
Fonte: O Globo, 21/11/2008, Rio, p. 10

Governo federal treinará 820 militares para atuar no combate à dengue no estado.

Ao divulgar ontem o Levantamento de Índice Rápido de Infestação por Aedes (Lira), realizado para mapear o risco de surto de dengue em 161 cidades do país, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou que 820 militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica atuarão no combate à doença no Rio. O município tem o quarto maior índice de casas infestadas de larvas do mosquito da dengue, dentre as 14 capitais que estão em situação de alerta. Apesar da redução de 0,8 ponto percentual em relação ao ano passado, 2,98% dos domicílios cariocas (praticamente três em cada cem) têm criadouros de Aedes. A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera tolerável o máximo de 1%.

Ao todo, o Ministério da Defesa vai designar 2.321 militares para ações preventivas e de mobilização em saúde pelo país. Esses militares serão treinados e atuarão, quando convocados, sob o comando do Ministério da Saúde. O primeiro treinamento acontecerá na Bahia, na próxima semana. O Estado do Rio já conta com a incorporação de 2.500 bombeiros que começaram a trabalhar no combate aos focos de Aedes no início deste mês. Bahia, Pará, Minas Gerais, Amazonas, Pernambuco, Ceará, Sergipe e Alagoas também terão reforço de militares.

- Vamos manter forças capacitadas, prontas para agir. Antes, levava de 15 a 20 dias; agora vamos ter equipes para, em 24 horas, estarem nos locais - explicou o ministro da Defesa, Nelson Jobim.

Dentre os 22 municípios do estado pesquisados, o Rio apresenta o maior índice de infestação. A presença do vetor da dengue chega a 10,8% em alguns domicílios do bairro de São Francisco Xavier, incluído pela Secretaria municipal de Saúde na região do Méier, onde a média está em 5,76%, a maior da capital. O levantamento foi feito de 13 a 18 de outubro.

S. Francisco Xavier: até 10,8% de focos

- Continuamos tendo problemas no Rio. Quando a gente pega o município, esses 2,9%, que são um índice de alerta, oscilam entre zero e 10,8%. Ou seja, existem bairros do Rio que não têm infestação alguma e bairros que apresentam um índice de 10,8%, de altíssimo risco. É fundamental que os prefeitos divulguem essas informações para que as pessoas possam saber qual é o risco que elas correm de contrair dengue - disse Temporão.

No estado, as cidades que merecem mais atenção depois do Rio são Nova Iguaçu e Itaboraí, que apresentaram variação de zero a 9,8% de casas infectadas. Já Caxias e Campos registraram áreas com infestações superiores a 4%, índice já considerado de risco.

O secretário estadual de Saúde, Sérgio Côrtes, não quis comentar o assunto. O prefeito Cesar Maia classificou o treinamento de militares como "um desperdício, pois o risco de dengue aqui inexiste, embora seja alto em outros municípios".

Das 161 cidades avaliadas no país, 71 estão em situação de alerta - e, segundo o ministério, "merecem total atenção". No ano passado o Rio já se encontrava nesta situação, com 3,7% dos domicílios infestados, mas a descontinuidade de ações de combate à doença resultaram num surto que, ao longo deste ano, causou 125.988 vítimas de dengue, sendo cem fatais.

Ainda segundo o ministério, cinco cidades brasileiras correm risco de epidemia: Itabuna (BA), com 15,6% das casas infestadas; Epitaciolândia (AC), com 7,4%; Mossoró (RN), com 6,8%; Várzea Grande (MT), com 6,1% e Camaçari (BA), com 4,1%.

Ao divulgar o Lira, Temporão aproveitou para fazer um apelo aos prefeitos que entregarão seus cargos a sucessores em 1º de janeiro:

- A coisa mais dramática para mim é ouvir um gestor falar: "a minha situação área de risco agora é só alerta", ou "ano que vem não vai ter epidemia, então desmobiliza, não gasta não". O combate tem que ser contínuo.