Título: PF rastreia possíveis contas de Dantas no exterior
Autor: Aggege, Soraya
Fonte: O Globo, 22/11/2008, O País, p. 11
Doleiros confirmam transações com clientes brasileiros através de fundos do Opportunity; banqueiro nega.
SÃO PAULO. A Polícia Federal obteve os dados de supostas contas no exterior ligadas ao banqueiro Daniel Dantas e ao Grupo Opportunity. As informações foram obtidas junto a doleiros que foram investigados na Operação Farol da Colina, em 2004, e aceitaram propostas de delação premiada. Pelo menos uma das contas, a Depolo, teria operado para o Opportunity Fund. A conta teria sido desmontada há quatro anos. A defesa alega que as contas não existem.
Os doleiros afirmaram ao delegado federal Ricardo Saadi que tinham clientes brasileiros, residentes no país, que remetiam ou resgatavam recursos junto ao Opportunity Fund. As apurações, verificadas no relatório parcial de Saadi, seguem a mesma estratégia do delegado Protógenes Queiroz, que focou as transações do Opp Fund no chamado "nicho dos doleiros".
A primeira medida foi o cruzamento de dados da Operação Satiagraha com o banco de dados do caso Banestado (de onde a Operação Farol da Colina foi derivada), investigado pelo MPF do Paraná desde 1997 e que resultou na CPI do Banestado.
Saadi, no entanto, avançou com os depoimentos dos doleiros. Falta ainda um cruzamento de dados com os discos rígidos apreendidos, que estão criptografados. A expectativa é de que esses cruzamentos sejam definidos no relatório final que a PF deve apresentar, provavelmente, no início do próximo ano.
MTB Bank, de Nova York, abrigava várias contas
Os doleiros Patrícia Matalon Peres (cujo pai, Marco Matalon, foi um dos doleiros presos na Satiagraha), Luís Felipe Malão, Clark Setton e Richard Andrew de Mol Van Otterloo apontaram nomes de brasileiros que investiam no Opportunity Fund de Dantas, segundo o relatório de Saadi. O doleiro Setton seria o dono da conta Depolo, e recebeu ou remeteu US$1,7 bilhão só pelo MTB Bank de Nova York. A CPI do Banestado chegou a estimar em US$10 bilhões o giro total da Depolo, que funcionou até 2004.
Não foram ouvidos ainda os doleiros investigados na Satiagraha, dentro do núcleo do investidor Nagi Nahas: Lúcio Bolonha Funaro - que também esteve envolvido no caso do mensalão - e Marco Ernest Matalon, conhecido como "o velho" ou "o doleiro das estrelas", porque operaria para brasileiros famosos. Ambos teriam movimentado contas no MTB. Os brasileiros que usaram os doleiros não queriam que o Banco Central rastreasse e identificasse os donos do dinheiro.
No caso Banestado, ficou claro que as remessas passavam por vários bancos e contas antes de chegar ao destino. Cada conta era como uma "camada da cebola". Para romper o sigilo, seria necessário verificar conta a conta, banco a banco. A maior parte do dinheiro que saiu do Brasil nunca foi totalmente rastreada até a última camada. O MTB Bank, de Nova York, que também aparece na Satiagraha, abrigava várias contas.
Foi no MTB que se enxergaram as primeiras ligações com o Opportunity. Os mesmos doleiros que movimentaram milhões dentro e fora do Brasil apareciam remetendo para o fundo que o banqueiro Daniel Dantas criou e geriu nas Ilhas Cayman. Só desse banco teriam partido US$16 milhões para o fundo.