Título: Uma revolução verbal
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 24/11/2008, O Mundo, p. 23
Em 1999, os ventos políticos venezuelanos pareciam começar a soprar da esquerda. O discurso do novo governo girava em torno do social, e surgiam propostas que buscavam reparar as avarias - pobreza, desigualdade, vulnerabilidade da economia rentista, crise de Estado, fragilidade institucional e... paremos por aqui - produzidas no último vão de nossa história. Dez anos depois, cabe fazer, então, uma auditoria para ver se ganhou forma uma sociedade inspirada nas bandeiras históricas da esquerda, atualizadas, em função das dificuldades e possibilidades do século XXI.
Dez anos depois, nossa economia continua a ser retratada, com mais ou menos palavras, pelo mesmo diagnóstico de pelo menos meio século atrás. Uma economia capitalista, vinculada ao mercado petroleiro e vulnerável a seus caprichos, além de condicionada, hoje mais que nunca, às importações de toda classe que visam a atender um padrão de consumo exacerbado, champanhe e jipes. O desenvolvimento endógeno é, portanto, uma quimera, e a chamada economia social, germe das novas relações de produção, só representa 1% do PIB nacional, sinal de que não existe no horizonte, salvo em palavras imprecisas e confusas, um novo modelo econômico.
Dez anos depois, a pobreza diminuiu e os setores mais desfavorecidos elevaram sua capacidade de consumo em cerca de 150% nos últimos tempos, têm maior acesso aos tratamentos médicos e à educação (ainda que a qualidade deixe a desejar), assim como a alguns outros serviços, graças, sobretudo, a políticas de viés assistencialista, cada vez menos eficazes, que nem sequer roçam as estruturas sociais e que ficam pendurados por um fio, o dos altos preços do petróleo. Cabe destacar, assim mesmo, que segundo informações do Instituto Nacional de Estatística, a má distribuição da riqueza não melhorou desde 1999, enquanto se formou, com o amparo do governo, uma leva de novos ricos, que, de acordo com alguns, foram a direita endógena da revolução.
Dez anos depois, continua pendente a tarefa de transformar o Estado. Apesar de sua reivindicação ideológica e política frente às teses neoliberais que endeusam o mercado, o Estado atual parece uma versão piorada do anterior no que diz respeito a corrupção, ineficiência, obesidade e clientelismo, enquanto o presidente se converteu na quase única evidência de que temos nossa institucionalidade pública. Contudo, o governo intervém cada vez mais (inclusive, tomou o controle direto de empresas importantes), assumindo - em formato fundamentalista - que o Estado é sempre o melhor guardião dos interesses da população e da nação.
Dez anos depois, ganhou relevo um processo de ganho de poder dos setores populares, através da criação de novos mecanismos sociais (Comitê de Terras Urbanas, Mesas Técnicas de Água, Conselhos Comunais, Comitê de Saúde e Alimentação...), emoldurados dentro da democracia participativa. Porém, ao mesmo tempo se observam tendências contrárias (presidencialismo, centralização, uniformidade ideológica, sectarismo, crescente domínio dos militares na política...), as quais embaçam e até anulam as anteriores, dando lugar a um governo com fortes rasgos autoritários que, de quebra, convive, em aparente paradoxo, com uma crescente anomia social (a insegurança é o problema que mais agonia os venezuelanos). Como em muitas outras áreas, o governo desfaz com a mão direita o que faz com a esquerda.
Dez anos depois, não parece, então, que vamos bem por onde vamos. A mudança do país tem sido mais dita que feita e, dadas as expectativas geradas em 1999 e os recursos e oportunidades que se têm para satisfazê-las, esta parece, do ponto de vista da esquerda, uma década perdida. A revolução bolivariana foi, sobretudo, verbal - o termo, que fique claro, não tem conotação pejorativa - mesmo que o dinheiro do petróleo permita um certo grau de dissimulação.
IGNACIO AVALOS GUTIÉRREZ é diretor da ONG Olho Eleitoral e escreveu o artigo para o "El Nacional" (GDA)