Título: Com dois comandantes e `a deriva
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 26/11/2008, O Mundo, p. 29

Ter dois presidentes e começar a sentir que tem nenhum, é a situação que enfrentaremos até a posse. Que Deus nos ajude.

O presidente Bush passou o fim de semana no Peru, num fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico. Segunda-feira, estava de volta, autorizando as últimas medidas do secretário de Tesouro Henry Paulson para salvar a economia da ruína.

Horas depois, o outro presidente, Barack Obama, apresentou sua poderosa equipe econômica. Ele disse que os indicados começariam a trabalhar logo, mas deixou claro que há pouco que possam fazer, a não ser monitorar a situação, estudar possíveis soluções e desenvolver um plano para ser posto em prática após 20 de janeiro. Não podemos esperar outro mês, disse Obama. Mas temo que seja isso o que vai acontecer.

O problema é que ninguém está preparado para orquestrar um plano para estabilizar o sistema financeiro e impedir que a economia entre em recessão.

Bush poderia e deveria fazê-lo ¿ ele ainda é presidente e evitar um colapso econômico é parte de sua tarefa. Mas não vai. É irônico, já que foi tão agressivo e pró-ativo em outras áreas. Ele limitou seu papel a assinar o que Paulson diz ser necessário.

Em parte, sua falta de ação tem a ver com ideologia. Se o mercado livre está sempre certo, ele deve se corrigir sozinho e voltar ao curso. Não acho que a ideologia explique tudo. Mesmo que queira arrumar a economia, à essa altura Bush não tem energia ou credibilidade para isso.

Isso nos deixa o outro presidente, que tem muita energia e credibilidade ¿ mas não autoridade. Bush chamou Obama para informá-lo sobre o plano para o Citigroup, mas informar não é o mesmo que consultar.

Obama disse acreditar que um grande pacote de estímulo seja necessário já. Mas sabe que isso não acontecerá ¿ é improvável que algo grande assim passe por um Congresso em fim de mandato e esse pacote não é algo que Bush deseje apoiar.

James Baker, ex-secretário de Estado e eminência parda republicana, fez uma sugestão interessante ¿ que Bush e Obama desenvolvam um programa de resgate econômico conjunto. Foi um reconhecimento de como se tornou fraca a Presidência de Bush e de como é perigoso esperar os próximos dois meses.

Mas é nessa estrada que estamos. Quando fico frustrado com os ziguezagues de Paulson, lembro-me de que ele não tem um presidente para quem trabalhar. O pobre homem tropeça aqui e ali, mas está dançando o mais rapidamente que pode.

EUGENE ROBINSON é colunista do Washington Post