Título: Devassa no Orçamento
Autor: Passos, José Meirelles
Fonte: O Globo, 26/11/2008, O Mundo, p. 29

Obama anuncia política agressiva de corte de gastos e até de subsídios para fazendeiros milionários.

Pelo segundo dia consecutivo, o presidente eleito Barack Obama deu a entender ontem que a fase inicial de governo ¿ os tradicionais cem primeiros dias de lua-de-mel concedidos a novos mandatários ¿ na prática, já começou antes mesmo de sua posse, no próximo dia 20 de janeiro. Ao anunciar mais duas figuras importantes de sua equipe econômica, ele apresentou o esboço de uma política agressiva em cortes de gastos federais, afirmando que ¿antes de fazer os investimentos que precisamos, nós também devemos estar dispostos a nos livrar de gastos do quais não necessitamos¿.

¿ A reforma do Orçamento não é uma opção. É uma necessidade ¿ afirmou Obama no discurso, alterando o texto que havia preparado, em que aparecia a palavra ¿imperativa¿ que preferiu trocar por ¿necessidade¿.

A sua segunda entrevista coletiva em dois dias tinha sido convocada justamente para que Obama apresentasse os dois funcionários que vão cuidar das contas do governo. Peter Orszag será o diretor do Escritório de Administração e Orçamento, da Casa Branca. Ele atualmente é diretor do Escritório de Orçamento do Congresso Nacional. Robert Nabors, hoje diretor de pessoal da Comissão de Apropriações da Câmara, será o vice-diretor de Orçamento do governo:

¿ Nós não podemos manter um sistema que sangra bilhões de dólares dos contribuintes em programas que já ultrapassaram a sua utilidade, ou que existem apenas devido ao poder de um político, de um lobista ou um grupo de interesses. Nós simplesmente não podemos mais bancar isso.

Para reforçar a agressividade de seu plano de ação, ele emendou:

¿ Nós vamos ler o Orçamento (que já está em vigor) página por página, linha por linha, eliminando os programas que não precisamos, e insistindo para que aqueles que necessitamos sejam cumpridos de uma forma sensível em termos de custo-benefício.

De quebra, Obama acenou com uma medida benéfica para os exportadores brasileiros, ao dar um exemplo de corte que pretende fazer: o de subsídios à agricultura que vão além do necessário. Dois milhões de agricultores recebem anualmente US$16 bilhões em ajuda, mas descobriu-se que vários que não teriam direito:

¿ Saiu um informe hoje dizendo que de 2003 a 2006 fazendeiros milionários receberam US$49 milhões em subsídios, muito embora a sua renda fosse maior do que o limite de US$2,5 milhões estipulados para quem possa obter tais subsídios. Se isso for verdade, trata-se de um grande exemplo do tipo de desperdício que eu pretendo terminar como presidente.

Gates deverá assumir a Defesa

Quando um repórter lembrou a Obama que ele próprio vinha insistindo que os EUA têm apenas um presidente de cada vez e, portanto, ele não tomaria atitudes que pudessem dar a impressão de estar interferindo no governo de George W. Bush, o presidente eleito respondeu sugerindo que com uma crise financeira tão aguda não havia outra saída a não ser dar os primeiros passos concretos:

¿ Dadas as atuais circunstâncias, acho que é muito importante que o povo americano entenda que estamos reunindo uma equipe de primeira classe. Não pretendemos tropeçar ao iniciar o próximo governo ¿ afirmou.

Para Doug Astolfi, historiador presidencial que leciona na St. Leo University, na Flórida, devido às recentes quedas no mercado de valores, só restava mesmo a Obama ¿dar um passo adiante¿:

¿ Se ele não tivesse se envolvido agora ia dar de encontro com um potencial de mudanças desastrosas na economia.

Jack Pitney, professor de assuntos governamentais do Claremont McKenna College, da Califórnia, endossou:

¿ Obama está mostrando um equilíbrio entre resolução e confiança. Não está tentando usurpar a autoridade do presidente, e sim preparar o terreno para o momento em que fizer o juramento como o novo presidente.

O próprio Obama vem repetindo que Bush tem sido ¿muito generoso¿, informando-o dos planos que possam ter continuidade no novo governo. Ao mesmo tempo, Obama revelou que além de ouvir Bush tem feito sugestões a ele a respeito de ações políticas em relação à crise, de forma a tornar mais suave a troca de comando.

Obama também tem conversado por telefone com os líderes republicanos na Câmara e no Senado. E Rahm Emanuel, que será seu chefe de gabinete, tem mantido contatos diários com eles. Na terça-feira, Obama dará outro passo concreto: vai se encontrar com todos os governadores em Filadélfia, para explicar as suas iniciativas e ouvir queixas e sugestões.

Quanto a novas nomeações, segundo a CNN, o secretário de Defesa, Robert Gates, teria concordado em permanecer no cargo por um ano. O site Politico, por sua vez, afirmou que os anúncios de Gates, do general James Jones como conselheiro de Segurança Nacional e de Hillary Clinton como secretária de Estado serão feitos na próxima semana.