Título: Mercado estima alta inferior a 3% para o PIB
Autor: Duarte, Patrícia; D'Ercole, Ronaldo
Fonte: O Globo, 02/12/2008, Economia, p. 25

Projeção para 2009 está em pesquisa feita pelo Banco Central. Fazenda admite que 4% será "meta ambiciosa".

BRASÍLIA e SÃO PAULO. Os efeitos da crise internacional levaram, pela primeira vez no ano, os economistas consultados pelo Banco Central (B) na pesquisa semanal Focus a registrar expectativa de crescimento econômico inferior a 3% para 2009, distanciando-se ainda mais da estimativa do governo de expansão de 4%. Um dos motivos é a inflação, que torna improvável que haja um ciclo de redução dos juros básicos no ano que vem - cujo impacto principal seria estimular a produção.

Alguns analistas apostam numa puxada na Selic, hoje em 13,75% ao ano, ainda este mês.

- O câmbio desvalorizado ainda vai aparecer na inflação - diz o economista sênior da Unibanco Asset Management (UAM), José Luciano Costa, que acredita numa elevação dos juros de 0,5 ponto em dezembro e em janeiro.

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária será nos dias 9 e 10 próximos, mas, a maioria ainda aposta em manutenção da Selic. Para 2009, o cenário é de expectativa dos juros passando de 13,31% para 13,50%.

Com o aperto monetário, os especialistas acreditam que o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá apenas 2,8% em 2009, ante previsão de 3% há três semanas. O presidente do BC, Henrique Meirelles, já havia ouvido esta avaliação de economistas na semana passada.

Para o economista-chefe da Sul América Investimentos, Newton Rosa, que prevê taxa de 3%, o Brasil está na contramão da maioria das economias que crescerão menos e vão registrar declínio da inflação. No Brasil, por causa do dólar mais caro, as pressões inflacionárias são maiores, mas os preços em queda das commodities ajudarão a atenuar o impacto.

O mercado calcula que o IPCA fique em 6,35% em 2008, e em 5,25% em 2009. Em ambos os casos, bem acima da meta inicial do governo, de 4,5%.

A restrição do crédito também é apontada como causa para a desaceleração econômica. Costa, da UAM, argumenta que todos os setores produtivos do país vão sentir a escassez de financiamentos, em especial a agricultura e a indústria.

O banco americano Morgan Stanley já considera possível uma estagnação da economia do Brasil em 2009, ainda que a projeção atual seja de alta de 2% do PIB no próximo ano.

"Não se pode descartar um número perto de zero. O Brasil pode cair em uma recessão técnica nos próximos trimestres", disse em relatório o economista do Morgan Stanley Marcelo Carvalho.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, voltou a afirmar ontem que o governo fará de tudo para que a economia brasileira cresça 4% no próximo ano, mas admitiu que não será fácil. Para o ministro, a fase mais aguda da crise já foi "estancada". E o governo está disposto a adotar novas medidas para manter o crescimento.

- A projeção não está alta, mas é claro que é uma meta ambiciosa. Não é fácil de ser alcançada. O governo vai manter todos os seus investimentos e, se for o caso, vamos aumentá-los, reduzindo tributo.

O ministro reconheceu ainda que a alta do câmbio é um fator de pressão sobre a inflação, mas será algo "momentâneo e passageiro".

- A demanda interna vinha crescendo a uma taxa de 14%. Se cair para 10% está ótimo, é uma faixa de crescimento da demanda de padrão chinês - disse o ministro.

Chuva em SC paralisa Porto de Itajaí e afeta exportações

A crise e as enchentes em Santa Catarina, que paralisaram o porto de Itajaí, não permitirão que o país alcance a meta de US$202 bilhões em exportações este ano. O secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, admitiu que existem dificuldades para atingir o previsto em setembro. Os números até novembro mostram exportação total de US$184 bilhões e superávit comercial de US$22,433 bilhões. Em novembro, as exportações (US$14,7 bilhões) e as importações (US$13,1 bilhões) foram recordes para o mês. Mas as vendas externas ficaram US$1,7 bilhão abaixo do esperado pelo governo.