Título: Venezuela: uma frente contra a reeleição indefinida
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 06/12/2008, O Mundo, p. 49

Oposição propõe movimento nacional contra reforma na Constituição que permitiria a Chávez permanecer no poder.

BUENOS AIRES. O deputado venezuelano Ismael Garcia, um dos poucos opositores que integram a Assembléia Nacional (o Congresso) do país, propôs a criação de uma frente nacional de defesa da Constituição, cujo principal objetivo será impedir a vitória do presidente Hugo Chávez num eventual referendo sobre seu projeto de reeleição indefinida.

Em entrevista ao GLOBO, ontem, por telefone, Garcia, que lidera o movimento Podemos, assegurou que "Chávez acredita que depois dele não haverá mais nada e é necessário acabar com esse modelo autocrático, que tanto dano está fazendo ao país".

Para opositor, presidente corre contra o tempo

O deputado opositor acusou o Palácio Miraflores de estar boicotando os governos opositores, eleitos no pleito de 23 de novembro passado. A mesma denúncia foi feita ontem por governadores antichavistas, entre eles o prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma.

- O governo está controlando funções e orçamentos que deveriam ser controlados pelos governos estaduais. O que está acontecendo é gravíssimo, em alguns estados, por exemplo, grupos chavistas estão destruindo caminhões que recolhem o lixo - declarou Ismael Garcia.

Segundo ele, o presidente "Chávez não quer admitir a derrota".

- O presidente Hugo Chávez não quer perder mais tempo porque a crise econômica está chegando, o preço do barril do petróleo já está em US$35 - lembrou o líder do Podemos.

Com este pano de fundo, no ano que vem o governo chavista, disse Garcia, deverá adotar medidas impopulares que poderiam prejudicar o presidente no referendo sobre a reeleição indefinida. Por isso, Chávez quer realizar a consulta nos primeiros meses de 2009.

- O presidente Chávez vai perder, disso não temos dúvida. Mas é importante atuar com inteligência, porque o governo tem recursos que nós não temos - afirmou o deputado.

De acordo com Garcia, a campanha para o referendo sobre o projeto de reforma constitucional de dezembro de 2007 custou, oficialmente, cerca de US$450 milhões.

- Hugo Chávez gastou o dobro, com fundos da estatal Petróleos da Venezuela - enfatizou o dirigente antichavista.

Derrotados nas eleições são designados ministros

Para ele, Hugo Chávez "é como uma fera ferida, que sente que está perdendo o poder".

Ontem, o presidente anunciou a designação de dois candidatos derrotados pela oposição nas eleições regionais de novembro como ministros de seu Gabinete. Jesse Chacón, que disputou a prefeitura do município de Sucre e já foi ministro do Interior, será o novo ministro da Comunicação e Informação. Já o ex-vice-presidente Diosdado Cabello, que tentou ficar com o governo do poderoso estado de Miranda, será agora ministro de Infra-Estrutura.