Título: Se a Petrobras precisar, eu empresto
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Fonte: O Globo, 07/12/2008, Economia, p. 35
Eletrobrás diz não ter problemas de caixa e promete investir R$7,9 bi no próximo ano, 58% mais que 2008.
Enquanto a Vale do Rio Doce demitiu, e a Petrobras pediu empréstimo à Caixa Econômica Federal, a Eletrobrás, responsável por 40% da geração total de energia do país, está monitorando a crise mundial. Presidente da holding há nove meses, José Antonio Muniz Lopes afirma que a empresa está bem financeiramente, com R$9 bilhões em caixa. E, em 2009, o Grupo Eletrobrás (Chesf, Eletronorte, Furnas, Eletrosul, Eletronuclear, CGTEE e Cepel) investirá R$7,9 bilhões em geração de energia.
- Se a Petrobras precisar, eu empresto para eles - disse brincando Muniz Lopes.
Ramona Ordoñez
A Eletrobrás foi afetada pela crise?
JOSÉ ANTONIO MUNIZ LOPES: Estamos acompanhando, monitorando. Mas as empresas do Grupo Eletrobrás estão com grandes projetos para iniciar no próximo ano, como as usinas do Rio Madeira, e as linhas de transmissão. A nossa receita não sofreu nem vai sofrer alteração, porque é baseada nos preços das tarifas de energia já prefixadas nos leilões passados. As tarifas de energia não oscilam como as do petróleo.
Quanto o Grupo Eletrobrás vai investir em 2009? Algum projeto pode atrasar?
MUNIZ LOPES: No próximo ano, vamos investir R$7,9 bilhões, contra os cerca de R$5 bilhões deste ano. E os recursos são próprios, das empresas privadas que participam majoritariamente dos projetos e do BNDES.
Então o Grupo Eletrobrás não vai precisar de recursos externos para investir?
MUNIZ LOPES: Não. Temos em caixa de perto de R$9 bilhões. Se a Petrobras precisar, eu empresto a eles!
Consumo menor vai beneficiar consumidor
O crescimento do consumo de energia poderá ser menor do que o previsto?
MUNIZ LOPES: Se houver queda, será muito pequena. Pode ser que tenhamos que adiar as obras de algumas usinas térmicas a óleo. E isso é o lado bom da crise. Como essa energia é mais cara, vai pressionar menos as tarifas para os consumidores.
Então a Eletrobrás não está preocupada com a crise?
MUNIZ LOPES: O setor elétrico é menos afetado do que o de petróleo. A crise nos pegou numa situação muito favorável, estamos com caixa. Nós não temos dificuldades alguma para financiar os projetos que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Não vamos precisar de recursos externos para esses investimentos.
A Eletrobrás não vai precisar cortar despesas, como a Petrobras está fazendo?
MUNIZ LOPES: O fato de a situação financeira estar boa não quer dizer que a empresa não esteja trabalhando no processo de ajuste de despesas e de redução de custos. Analisamos empresa por empresa e custos de materiais e serviços. Estamos monitorando, mas não baixamos nenhuma ordem para cortar publicidade, papel ou cafezinho. As empresas do Grupo Eletrobrás têm seus sistemas próprios de gestão para redução. Nós só acompanhamos.
Apesar da boa situação financeira atual, o Grupo Eletrobrás tem registrado perda de valor de mercado. O Instituto Acende Brasil constatou que, no período de 1998 a 2007, a Eletrobrás teve rentabilidade negativa. É verdade?
MUNIZ LOPES: Desde 2006 a equipe técnica da Eletrobrás começou a fazer um diagnóstico do grupo do período 2000 a 2015 e propôs alternativas.
Qual o principal problema que o estudo apurou?
MUNIZ LOPES: A perda de valor do Sistema Eletrobrás. A rentabilidade para o acionista, considerando o lucro dividido pelo valor patrimonial, foi de 1% nos últimos anos, enquanto a Selic chegava, por exemplo, a 11%. Por isso era preciso rever a estrutura desse negócio.
Como se explica isso? Afinal é uma empresa com R$81 bilhões de patrimônio.
MUNIZ LOPES: Do jeito que estava, a tendência era a perda ser cada vez maior para o acionista, enquanto o fluxo de caixa era positivo. Ou seja, era uma empresa que não agregava valor ao acionista, apesar do caixa positivo.
O que foi feito a partir de então?
MUNIZ LOPES: Isso gerou o Plano de Transformação do Sistema Eletrobrás que está sendo implementado. Quando assumi o cargo em março último, recebi do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, a determinação para adotar várias medidas com mudanças na estrutura e gestão do sistema, no sentido de mudar a situação.
O que abrange esse plano?
MUNIZ LOPES: É voltado para o aperfeiçoamento da governança, reorientação dos negócios em distribuição de energia, reformulação institucional e reorganização do modelo de gestão.
O que está sendo feito no caso das seis distribuidoras do Norte/Nordeste que, só no ano passado, deram um prejuízo de R$1,2 bilhão ?
MUNIZ LOPES: Eram empresas com diretores indicados por políticos, com perdas, inadimplência e mau atendimento à população. Numa única tacada acabei com 28 diretorias, centralizei a gestão em uma única diretoria. E a meta é dar lucro já em 2009. (Ramona Ordoñez)