Título: Gol: pilotos e controladores contribuíram para acidente
Autor: Suwwan, Leila
Fonte: O Globo, 11/12/2008, O País, p. 10
Relatório da FAB mostra que americanos podem ter desligado equipamento que evitaria colisão.
BRASÍLIA. Após mais de dois anos de investigação, a Aeronáutica concluiu que deficiências no treinamento dos controladores brasileiros e dos pilotos americanos, Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, foram fatores que contribuíram para a colisão entre o jato Legacy da ExcelAire e o Boeing 737 da Gol, em 29 de setembro de 2006, que resultou na morte das 154 pessoas a bordo do vôo 1907. Essa falha fez com que nenhum dos envolvidos percebesse, na cabine ou no centro de controle, que as aeronaves estavam em rota de colisão.
O relatório final da investigação técnica coloca como "hipótese mais provável", mas sem 100% de certeza, que o transponder do jatinho foi desligado de forma não intencional pelos pilotos, também por falta de familiaridade com os equipamentos da cabine. Esse dispositivo teria informado o controle aéreo sua real altitude e teria, em última instância, acionado o TCAS, sistema anti-colisão.
Pilotos não monitoraram instrumentos da cabine
Segundo o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes (Cenipa), os americanos não foram suficientemente treinados, apesar de terem certificação para voar o jato, da Embraer. Eles não estariam familiarizados com os equipamentos e realizaram o vôo inaugural de forma apressada. Além disso, não estavam monitorando de forma adequada os instrumentos na cabine.
Os sucessivos erros cometidos pelos controladores foram minuciosamente detalhados e começaram com informações incompletas fornecidas ao Legacy, que permitiu o entendimento de que poderiam permanecer na altitude de 37 mil pés desde São José dos Campos até Manaus. O plano original previa duas mudanças de nível, o que evitaria a colisão. Além disso, o controle falhou por não perceber e agir perante a falta de dados do transponder do jatinho e não entrar em contato por rádio para confirmar informações, o que era obrigação dos pilotos.
O brigadeiro Jorge Kersul, chefe do Cenipa, confirmou que a formação dos controladores "foi um fator psicologicamente contribuinte" para o acidente e disse que há 29 recomendações para que a Aeronáutica melhore o preparo desses profissionais. A defesa dos controladores afirma que eles foram induzidos ao erro pelo funcionamento do equipamento que mostra os dados de radar. Para o Cenipa,isso não é um fator contribuinte, mas o sistema pode melhorar.
Segundo o coronel Rufino Ferreira, que presidiu a comissão internacional de investigação, nos 40 segundos em que os pilotos ficam em silêncio e os radares deixam de detectar a altitude precisa do avião, eles estavam realizando cálculos sobre o consumo de combustível e balanceamento da aeronave, para o pouso da escala em Manaus. O equipamento que fornece esses dados é o mesmo que administra freqüências de rádio e aciona o transponder.
-- É uma hipótese bastante plausível que esse piloto, que estava se familiarizando, poderia estar manuseando esse equipamento e tivesse inadvertidamente acionado algum comando que fizesse isso - disse Rufino. - Não podemos afirmar com 100% de certeza, mas consideramos que esse é um cenário bastante plausível.
Os pilotos, assim como dois controladores, continuam sendo julgados por homicídio culposo na Justiça Federal. O relatório final não aponta culpados e não deve ser usando para a criminalização de acidentes, mas os parentes das vítimas pretendem anexá-lo como prova pericial da omissão e negligência dos pilotos.